A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei alguns sonetos celebres, e notei que os mais delles eram facilimos; os versos saíam uns dos outros, com a ideia em si, tão naturalmente, que se não acabava de crer se ella é que os fizera, se elles é que a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem terceiro, nem quarto; não vinha nenhum. Tive alguns impetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel; póde ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...

Cançado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do ultimo verso, com a simples transposição do duas palavras, assim:

Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

O sentido vinha a ser justamente o contrario, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, póde-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do ceu. Criei forças novas o esperei. Não tinha janella; se tivesse, é possivel que fosse pedir uma ideia á noite. E quem sabe se os vagalumes, luzindo cá em baixo, não seriam para mim como rimas das estrellas, e esta viva metaphora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos proprios?

Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adeante escrevi algumas paginas em prosa, e agora estou compondo esta narração, não achando maior difficuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquelle soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metaphysica, dou esses dous versos ao primeiro desoccupado que os quizer. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer occasião de lazer, póde tentar ver se o soneto sae. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta.


[LVI]

Um seminarista.

Tudo me ia repetindo o diabo do opusculo, com as suas lettras velhas e citações latinas. Vi sair daquellas folhas muitos perfis de seminaristas, os irmãos Albuquerques, por exemplo, um dos quaes é conego na Bahia, emquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um especifico contra a febre amarella. Vi o Bastos, um magricella, que está de vigario em Meia-Ponte, se não morreu já; Luiz Borges, apesar de padre, fez-se politico, e acabou senador do imperio... Quantas outras caras me fitavam das paginas frias do Panegyrico! Não, não eram frias; traziam o calor da juventude nascente, o calor do passado, o meu proprio calor. Queria lel-as outra vez, e lograva entender algum texto, tão recente como no primeiro dia, ainda que mais breve. Era um encanto ir por elle; ás vezes, inconscientemente, dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade; creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da pagina, e a mão, acostumada a ajudal-os, faziam o seu officio...

Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse acostumado com elle podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam as outras, nem se deixavam apertar dellas, porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava tel-os entre os seus, já não tinha nada. O mesmo digo dos pés, que tão depressa estavam aqui como lá. Esta difficuldade em pousar foi o maior obstaculo que achou para tomar os costumes do seminario. O sorriso era instantaneo, mas tambem ria folgado e largo. Uma cousa não seria tão fugitiva, como o resto, a reflexão; iamos dar com elle, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando. Respondia-nus sempre que meditava algum ponto espiritual, ou então que recordava a licção da vespera. Quando elle entrou na minha intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miudas, e tinha memoria para guardal-as todas, até as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra.