[LIX]
Convivas de boa memoria.
Ha dessas reminiscencias que não descançam antes que a penna ou a lingua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memoria. A vida é cheia de taes convivas, e eu sou acaso um delles, comquanto a prova de ter a memoria fraca seja exactamente não me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.
Não, não, a minha memoria não é boa. Ao contrario, é comparavel a alguem que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar dellas nem caras nem nomes, e sómente raras circumstancias. A quem passe a vida na mesma casa de familia, com os seus eternos moveis e costumes, pessoas e affeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a còr das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei hontem. Juro só que não eram amarellas porque execro essa côr; mas isso mesmo póde ser olvido e confusão.
E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se póde metter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me afflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não achei nelle. Quantas ideias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as egrejas que não vi nas folhas lidas, todos me apparecem agora com as suas aguas, as suas arvores, os seus altares, e os generaes sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista.
É que tudo se acha fóra de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim pódes tambem preencher as minhas.