[LXIII]

Metades de um sonho.

Fiquei ancioso pelo sabbado. Até lá os sonhos perseguiam-me, ainda accordado, e não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. Um só ponho, e no menor numero de palavras, ou antes porei dous, porque um nasceu de outro, a não ser que ambos formem duas metades de um só. Tudo isto é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso sexo, que perturbava assim a adolescencia de um pobre seminarista. Não fosse elle, e este livro seria talvez uma simples pratica parochial, se eu fosse padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma encyclica, se papa, como me recommendára tio Cosme: «Anda lá, meu rapaz, volta-me papa!» Ah! porque não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão, tenente e imperador, todos os destinos estão neste seculo.

Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar os peraltas da visinhança, vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janella. Corri ao logar, elle fugiu; avancei para Capitú, mas não estava só, tinha o pae ao pé de si, enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. Não me parecendo isto claro, ia pedir a explicação, quando elle de si mesmo a deu; o peralta fôra levar-lhe a lista dos premios da loteria, e o bilhete saira branco. Tinha o numero 4004. Disse-me que esta symetria de algarismos era mysteriosa e bella, e provavelmente a roda andára mal; era impossivel que não devesse ter a sorte grande. Emquanto elle falava, Capitú dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com a bocca. E aqui entra a segunda parte do sonho. Padua desappareceu, como as suas esperanças do bilhete. Capitú inclinou-se para fóra, eu relancei do olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe nas mãos, resmunguei não sei que palavras, e accordei sósinho no dormitorio.

O interesse do que acabas de ler não está na materia do sonho, mas nos esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nelle outra vez. Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos, apertal-os bem, esquecer tudo para dormir, mas não dormia. Esse mesmo trabalho fez-me perder o somno até á madrugada. Sobre a madrugada, consegui concilial-o, mas então nem peraltas, nem bilhetes de loteria, nem sortes grandes ou pequenas,--nada dos nadas veiu ter commigo. Não sonhei mais aquella noite, e dei mal as licções daquelle dia.


[LXIV]

Uma ideia e um escrupulo.

Relendo o capitulo passado, acóde-me uma ideia e um escrupulo. O escrupulo é justamente de escrever a ideia, não a havendo mais banal na terra, posto que daquella banalidade do sol e da lua, que o ceu nos dá todos os dias e todos os mezes. Deixei o manuscripto, e olhei para as paredes. Sabes que esta casa do Engenho Novo, nas dimensões, disposições e pinturas, é reproducção da minha antiga casa de Matacavallos. Outrosim, como te disse no capitulo II, o meu fim em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida, o que aliás não alcancei. Pois o mesmo succedeu áquelle sonho do seminario, por mais que tentasse dormir e dormisse. Donde concluo que um dos officios do homem é fechar e apertar muito os olhos, a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça. Tal é a ideia banal e nova que eu não quizera pôr aqui, e só provisoriamente a escrevo.

Antes de concluir este capitulo, fui á janella indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tenues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bella, os morros pallejavam de luar e o espaço morria de silencio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem á sua jurisdicção. Quando elles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ella tinha o seu palacio, e donde os fazia sair com as suas caras de varia feição, dar-me-hia explicações possiveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cerebro da pessoa. Estes, ainda que quizessem imitar os outros, não poderiam fazel-o; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objecto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados-Unidos.