—Põe em cima da mesa, disse o dono da casa. É o meu almôço,—continuou elle, voltando-se para Estacio; almôço parco e hygienico. Ousarei offerecer-lh'o?

Estacio fez um gesto negativo, e dispoz-se a sahir.

—Ja! Não é meu intento despedil-o; almoçarei conversando. Vivo tão solitario, que a presença de alguma pessoa é para mim um encanto.

Estacio aceitou sem difficuldade o convite; sentou-se defronte do homem, ao pe da mesa, e assistiu ao almôço, que não podia ser mais escasso: um pão, duas hostias de queijo duro, e uma chavena de cafe. O que mais valia era o contentamento do dono da casa e a franqueza com que ostentava aos olhos de um extranho a simplicidade de seus habitos.

—Não é refeição de principe,—dizia elle,—mas satisfaz todas as ambições de um estomago sem esperança. Aqui é a sala de visitas e a sala de jantar; a cosinha é contigua; além, ficam duas braças de quintal; para la do quintal... o infinito da indifferença humana.

E depois de um silêncio:

—Não digo bem, emendou elle; nem sempre acho indifferença. Meu trabalho não me dá mais do que o escasso pão de cada dia; mas tenho algumas alegrias, no meio de minha perpétua quaresma; e essas recebo-as de mãos caridosas e puras.

Dizendo isto, o desconhecido exgotou a chavena, e reclinou-se sôbre a cadeira, fitando em cheio a cara do hóspede. Estacio reflectiu nas últimas palavras, e um raio de esperança veiu rasgar-lhe a nuvem que lhe entenebrecia a fronte. Os dous homens pareciam interrogar-se. O filho do conselheiro saccou do bolso um charuto e offereceu-o ao dono da casa.

—Obrigado, disse este.

—Não fuma?