—Juro.
Melchior desabrochou a camisa, e aventou um crucifixo de marfim, que lhe pendia de uma fita preta, ao pescoço.
—Este, disse elle cora voz singella, é a effigie do teu Deus. Tão puro exemplo de castidade não viram os seculos nem antes nem depois que elle desceu á terra. Jura o que me promettes.
—Padre-mestre,—retorquiu Estacio; minha palavra era bastante. Mas, se é preciso affirmação mais solemne, eu a darei tal qual me pede.
Estacio inclinou a cabeça sôbre o crucifixo e beijou-o respeitosamente; depois beijou a mão ao padre. Melchior abençou-o e sahiu.
Sahindo do gabinete de Estacio, dirigiu-se para a sala de costura, onde achou D. Ursula um pouco menos agitada.
—Falou a Helena? perguntou ella dirigindo-se ao padre.
—Ainda não; sei que não quer sahir do quarto; deixemos passar a primeira commoção. Amanhã virei saber tudo. Por hoje é preciso que a senhora socegue.
—Oh! estou socegada! Não perdi a confiança.
D. Ursula proferiu éstas palavras com tamanha serenidade e tão profunda convicção que fortaleceu o espirito do proprio Melchior, alias não inclinado a crer no mal. O ancião deteve-se alguns instantes a contemplar o rosto placido de D. Ursula, a admirar a fôrça secreta que a tornava surda ao clamor da realidade,—pelo menos, da realidade apparente. Contemplou-a silencioso, e desceu á chacara.