—Perdoem-me,—continuou elle depois de alguns instantes, se éstas memorias me abalam o coração. Eu era pobre, tão pobre como hoje. Desse tempo só resta um echo doloroso e consolador. Crescia Helena e cresciam suas graças. Era o encanto e a esperança do meu albergue. Quando pôde aprender os rudimentos da leitura, dei-lhe as primeiras licções; assisti pasmado á aurora daquella intelligencia que os senhores veem hoje tão desenvolvida e lucida. Aprendia com facilidade, por que estudava com amor. Angela e eu construiamos os mais lindos castellos do mundo. Nós a viamos ja mulher, formosa como viria a ser, porque ja o era, intelligente e prendada, espôsa de algum homem que a adorasse e elevasse. Viviamos dessa antecipação, que era apenas um sonho, e não sentíamos os golpes da fortuna.

—Porque razão,—perguntou Melchior,—dado esse amor e nascida uma filha, não sanctificou o senhor a situação singular em que se achavam?

—A curiosidade é justa, replicou Salvador, mas a resposta é decisiva. Casar era a nossa justificação; era um argumento contra o resentimento de meu pae. Nos primeiros dias da nossa fuga do Rio Grande a propria embriaguez da felicidade desviou qualquer ideia de sanctificar e legalisar uma união consentida pela natureza. Depois vieram os trabalhos e as necessidades. Como eu tinha certeza de não fugir ao dever que tomára em meus hombros, ia adiando o acto de mez para mez, de anno para anno. Afinal o projecto esvaiu-se de todo. Estavamos ligados pela miseria e pelo coração, não pretendiamos o respeito da sociedade; triste desculpa, e ainda mais triste recordação, por que o casamento teria talvez obstado aos acontecimentos posteriores. Helena contava seis annos. Minha fortuna, adversa sempre, com intermittencias favoraveis, parecia abrandar um pouco. Ia encetar um novo meio de vida, quando uma circumstância grave me chamou ao Rio Grande. Meu pae adoecêra; mandava-me o seu perdão, ordenando-me que o fôsse ver sem demora. Obedeci promptamente. Do que elle me remetteu para as despezas dr viagem e outras, deixei alguma cousa a Angela e Helena, e parti. Vinte e quatro horas depois de ver meu pae, tive a dor de o perder. A liquidação dos negocios foi curta; os bens todos ficaram pertencendo aos credores; restavam-me alguns patações. Recebi esse golpe novo com a philosophia da insensibilidade. Quem sabe se não era eu o culpado do acontecimento? Os negocios entretanto, apezar de curtos, demoraram-me mais do que eu pretendia e convinha. A ancia de voltar cresceu desde que não recebi a resposta das últimas cartas que escrevi a Angela. Enfim, pude regressar ao Rio de Janeiro com um luto mais e uma esperança menos. Neste ponto entra a pessoa de seu pae.

Estacio desviou os olhos.

—Logo que cheguei,—continuou Salvador,—corri a casa; achei-a fechada. Um visinho, testemunha da minha afflicção, deu-me notícia de que Angela se mudára para S. Christovão. Não sabia nem o numero nem a rua; mas deu-me algumas indicações, que me guiaram. Ainda hoje tenho ante os olhos o sorriso com que aquelle homem me respondia. Era um sorrir de compaixão que humiliava. Sem nunca haver recebido de mim a menor offensa, vejo que elle tinha um prazer secreto com o meu infortunio. Porque? Deixo aos philosophos liquidarem esse enigma da natureza humana. Voei a S. Christovão; gastei tempo em procurar a casa, mas dei com ella. Quando a vi, duvidei de meus olhos ou das indicações. Era uma casa elegante, escondida entre o arvoredo, no meio de um pequeno jardim. Podia ser aquella a residencia da companheira de minha miseria? Receioso de ir bater alli, vi assomar ao portão um homem, que me pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela dona da casa, a quem dei o seu proprio nome, dizendo que lhe desejava falar. «A senhora sahiu,» respondeu elle distrahidamente. Dispuz-me a esperar, mas o jardineiro observou-me que ia sahir e fechar o portão, e que a senhora só voltaria á noite. «Esperarei até a noite», redargui. O jardineiro mediu-me de alto a baixo, circulou um olhar cautelloso pela rua e disse-me baixinho: «Aconselho ao senhor que não volte; o patrão não hade gostar.» Não escrevo um romance; dispenso-me de lhes pintar o efeito que produziram essas palavras. O que senti excede a toda a descripção. Ha catastrophes mais solemnes, ha situações mais patheticas; mas naquella occasião parecia-me que todas as dores do mundo se tinham convergido para meu coração. O jardineiro era verdadeiramente compassivo; lendo em meu rosto o effeito de suas palavras, disse-me alguma cousa de que absolutamente me não lembro. Convidou-me com brandura a sahir; obedeci machinalmente. Podendo informar-me acerca de Angela, não o fiz. A febre reteve-me tres dias de cama, n'uma pobre cama alugada em pessima estalagem da Cidade Nova. No terceiro dia recebi uma carta de Angela. Pedia-me que lhe perdoasse o passo que dera; que uma paixão nova e delirante a havia guiado, e que, se viesse a arrepender-se, seria essa a minha vingança. Quando li a carta, tive impeto de ir ter com ella e esganal-a; mas o impeto passou, e a dor desfez-se em reflexões. Poucos dias antes, a bordo, um engenheiro inglez que vinha do Rio Grande para esta Côrte, emprestara-me um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco inglez que aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que alli achei fez-me estremecer, na occasião, como uma profecia; recordei-a depois quando Angela me escreveu. «Ella enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, há de enganar-te a ti tambem.» Era justo; pelo menos, era explicavel. Dous dias depois da carta de Angela, escrevi-lhe pedindo meia hora de conversação; nada mais. Angela concedeu-me a entrevista. Meu plano era arrebatar-lhe Helena; ela parece que o previu, recebendo-me sosinha, no jardim, ás nove horas da noite.

—Por que razão recorda todas essas minucias? interrompeu Melchior com brandura; nós desejamos somente saber o essencial.

—Tudo é essencial na minha narração, disse Salvador. Aquella entrevista mostrou-me a toda a luz o caracter de Angela. Que outra mulher se arriscaria, em taes circumstâncias, a affrontar a colera do homem desprezado? Angela era um complexo de qualidades singulares. Capaz de supportar as maiores angústias, forte e risonha no meio das maximas privações, esqueceu n'um instante as virtudes que tinha para correr atraz de uma fantasia do amor. Não foi a riqueza que a seduziu; ella iria, ainda que tivesse de trocar a riqueza pela miseria. Angela nasceu metade freira e metade bailarina; capaz das austeridades de um claustro, não o era menos das pompas da scena. E dahi... não fui eu mesmo que a desviei da estrada real para mettel-a por um atalho obscuro? Disse-lh'o naquella noite em que procurei ser tranquillo e superior aos acontecimentos. «Meu fim,—declarei eu,—é só um: levar Helena; Helena é minha filha, não quero deixal-a entregue a seus maus exemplos.» As lagrymas com que me banhou as mãos, as rogativas que me fez, ajoelhada a meus pes, para que lhe deixasse Helena, não ha negar que foi tudo sincero. Cedi apparentemente. Minha resolução estava assentada; sem Helena a vida parecia-me impossivel. Que outro vínculo me prendia ao mundo? A morte e a miseria tinham feito em redor de mim completa solidão. A unica felicidade sobrevivente era ella.

—Segundo rapto, observou o padre. O senhor condemnava-se a só adquirir um vislumbre de felicidade por meios violentos.

—Tem razão, respondeu Salvador com tristeza; um abysmo chamava outro abysmo... Felizes os que sabem o caminho recto da vida, e nunca se arredaram delle! Quiz arrebatar Helena; espreitei-a noite e dia. Não a via nunca; a propria casa rara vez tinha uma porta ou janella aberta. Havia alli o recato e o mysterio. Um dia resolvi ir ter com o protector de Angela. A noticia que me deram do conselheiro Valle era a mais honrosa do mundo. Assentei que me ouviria e cederia a meus justos rogos. O demonio do orgulho impediu a execução do plano. Quasi a entrar em casa do conselheiro, recuei. Decorreram assim cêrca de dous mezes. Emmagreci; as longas vigilias fizeram-me pallido; o trabalho não me attrahia; cheguei a padecer fome. O poeta que disse que a saudade é um pungir delicioso não consultou meu coração. Acerbo o achei eu; é certo que a ella misturava-se a colera, a colera da impotencia e o desgôsto mortal do abandono. Um dia, dirigi-me para S. Christovão, disposto a empregar a violencia, com tanto que trouxesse Helena ou fôsse dalli para o Aljube. Era á tardinha. Approximei-me do jardim de Angela, ouvi a voz de minha filha. Era a primeira vez depois de longos mezes! Parou-me o sangue todo. Passado o primeiro abalo, caminhei cautelloso encostado á cêrca, Helena falava a alguem. Por uma abertura da cêrca, pude espreital-a. Estava ao collo de um homem. Esse homem era o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para o meu rival, ora para a minha Helena. Helena acariciava as barbas delle; este sorria para ella com um ar de ternura, que o absolvia quasi da offensa a mim feita. O coração porém apertou-se-me, ao ver dar a outro, affagos a que só eu tinha direito. Era um roubo feito á natureza; mas, se meu proprio sangue me repudiava, que podia eu exigir de alheios corações? Dahi a algum tempo,—não sei se foi curto ou longo, por que eu ficára a olhar para ambos, pasmado de amor e de colera, ouvi que falavam de mim. «Mas, olhe,—dizia Helena,—papae quando vem?» O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma borboleta que nesse momento pairara sôbre a cabeça della. As creanças porém são implacaveis; aquella repetiu a pergunta. «Papae não volta» respondeu o conselheiro. Helena ficou muito séria. «Não volta? porque?» «Tua mamãe disse hontem que papae está ao ceu.» Helena levou as mãos aos olhos, donde lhe rebentaram lagrymas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos olhos, tentei dar alguns passos, entrar no jardim, dizer quem era e exigir minha filha. Os musculos não corresponderam á intenção; senti fraqueza nas pernas; achei-me de bruços. Quando dei accôrdo de mim, volvi de novo os olhos para o logar onde os víra. Ainda alli estavam, mas a attitude era differente. O conselheiro erguera-se, tendo nos braços Helena, que ja não chorava. Elle beijava-lhe as mãosinhas e dizia-lhe: «Se papae foi para o ceu, fiquei eu no logar delle, para dar-te muito beijo, muito doce e muita boneca. Queres ser minha filha?» A resposta de Helena foi a do náufrago; estendeu-lhe os braços em volta do pescoço, como se dissesse; «Se não tenho ninguem mais no mundo!» O gesto foi tão eloquente que eu vi borbulhar uma lagryma nos olhos do conselheiro. Essa lagryma decidia do meu destino; vi que elle a amava, e de todos os sacrificios que o coração humano póde fazer, aceitei o maior e mais doloroso: eliminei a minha paternidade, desisti da unica herança que tinha na terra, fôrça da minha juventude, consolo de minha miseria, coroa de minha velhice, e voltei á solidão mais abatido que nunca!

Salvador interrompeu a narração; levou a mão direita aos olhos; por entre seus dedos escorreram algumas lagrymas, que elle, de envergonhado, enxugou rapidamente.