—Conservar ésta situação?
—De certo. Helena obedeceu á vontade de seus dous paes, aceitando o equívoco em que ambos a vieram collocar. Obedeceu á fôrça. Agora, está reconhecida; é um facto que não podemos discutir nem alterar.
Estacio esteve silencioso alguns instantes.
—Mas posso eu, á vista do que acabamos de ouvir, conservar a Helena um titulo que rigorosamente lhe não pertence? Helena não é minha irmã; é absolutamente extranha á nossa familia; o titulo que nos ligava desaparece. Por que motivo continuariamos nós uma falsificação...
—De seu pae? atalhou Melchior.
—Padre-mestre!
—Aquelle homem falou verdade; mas nem a lei nem a Egreja se contentam com essa simples verdade. Em opposição a ella, ha a declaração derradeira do um morto. A justiça civil exige mais do que palavras e lagrymas; a ecclesiastica não extingue, com um traço de penna, a affirmação posthuma. Demais, não espere que esse homem reproduza perante ninguem as declarações de ha pouco; só o fará quando perder a ultima esperança. É evidente que elle nada quer alterar do que seu pae estabeleceu, e antes se sacrificará do que envergonhará a filha. Sente-se disposto a fazer o que elle recusa?
Estacio não respondeu; tinham entrado na chacara, e caminhavam lentamente na direcção da casa. Melchior deteve-o.
—Estacio! disse o padre depois de olhar para elle um instante. Eu leio no fundo de seu pensamento; quizera despojar Helena do titulo que seu pae lhe deixou para lhe dar outro, e ligal-a á sua familia por differente vínculo...
Estacio fez um gesto como protestando.