—Não creio que ella aceite facilmente a sua decisão,—disse Melchior a Estacio, logo que pôde achar-se só com elle. Acautele-se: é capaz de fugir-nos.
—Cre?
—Não a conhece ainda? A posição em que estes acontecimentos a deixaram repugna-lhe mais que tudo. Prefere a miseria á vergonha; e a ideia de que interiormente não a absolvemos, é o verniz que lhe fica no coração.
De noite, recebeu Estacio uma carta de Salvador, acompanhada de um pacote.
«Reflecti muito durante éstas duas horas,—dizia elle,—e cheguei a uma conclusão unica. Elimino-me; é o meio de conservar a Helena a consideração e o futuro que lhe não posso dar. Quanto ésta carta lhe chegar ás mãos, terei desaparecido e para sempre. Não me procure, que é inutil. Irei abençoal-o de longe. Recaia, entretanto, sobre mim todo o resentimento; eu só o mereço, porque só eu o provoquei. Vão as cartas de Helena; guardo tres apenas, como recordação da felicidade que perdi.»
Estacio teve vontade de ler as cartas de Helena; mas a tempo recusou; mandou-a dar á moça. Helena, que estava com D. Ursula, entregou-as a ésta.
—São a minha história, disse ella; peço-lhe que as leia e me julgue.
Havia em seus olhos uma expressão que não era usual. Recolheu-se immediatamente a seu quarto, onde jazeu longo tempo, calada, quieta, sinistra, o corpo atirado em um sopha, a alma sabe Deus em que regiões de infinito desespêro.
[CAPITULO XXVIII]
Naquella noite, a segunda de tão singulares successos, foi que Estacio sentiu toda a violencia do amor que lhe inspirára Helena. Em quanto os detinha um vínculo sagrado, amára sem consciencia; e ainda depois de esclarecido pelo padre, o esfôrço empregado em vencer-se, e a propria natureza da catastrophe, não lhe permmittiram ver a extensão do mal. Agora, sim: roto o vínculo, restituida a verdade, elle conhecia que a voz da natureza, maia sincera e forte que as combinações humanas, os chamava um para o outro; e que a mulher destinada a amal-o e ser amada, era justamente a unica que as leis sociaes lhe vedavam possuir.