—Deixe-me estar aqui um instante mais, respondeu ella.
—Dous minutos apenas.
Sentou-se ao pe della e ficaram calados. Helena tinha uma taquara na mão; Estacio quiz tomar-lh'a; ella arremessou-a para longe. Ergueu-se então o moço e foi buscal-a; só então viu que estava molhada até certa altura; calculou que seria o fundo do tanque. O tanque era raso; não poderia dar a morte; mas a suspeita de que Helena não recuaria deante do suicidio aterrou naturalmente o espirito de Estacio. Parecendo-lhe que a causa não comportava o effeito, perguntou a si mesmo se os successos daquelles dias não teriam velado a consciencia da moça. Sentou-se de novo e falou-lhe com brandura.
Ao escutal-o, sentiu Helena como uma ressurreição de outras horas, que ella julgava escoadas para sempre; um sorriso lhe animou os labios sem côr, ao passo que os olhos doridos e murchos pareciam reviver de um resto de luz. Estacio falou-lhe de si, da tia, do padre e de Mendonça, dos proximos casamentos, da felicidade futura. Depois insistiu com ella para que entrasse. Uma brisa mais forte começava a agitar as árvores, e a tempestade ameaçava cahir de repente.
—Ainda não,—disse a moça; alguns minutos mais.
—Mas póde adoecer...
—Talvez, se todos quizerem a minha saude. Ha creaturas tão malfadadas, que aquelles mesmos que as desejam fazer venturosas não alcançam mais do que preparar-lhe o infortunio. Tal foi o meu destino. Seu pae e minha mãe não tiveram outro pensamento; meu proprio pae foi levado do mesmo impulso, quando me obrigou a ser complice de uma generosa mentira. Agora mesmo que elle me foge, com o fim unico de me não tolher a felicidade, arranca-me o ultimo recurso em que eu tinha posto a esperança.
—Helena! interrompeu Estacio.
—O ultimo, repetiu a moça.
Esvaira-se-lhe o sorriso, e o olhar tornara a ser opaco. Estacio teve medo daquella atonia e concentração; travou-lhe do braço; a moca estremeceu toda e olhou para elle.