O Dr. Camargo, médico e velho amigo da casa, logo que regressou do entêrro, foi ter com Estacio, a quem encontrou no gabinete particular do finado, em companhia de D. Ursula. Tambem a dor tem suas voluptuosidades; tia e sobrinho queriam nutril-a com a presença dos objectos pessoaes do morto, no logar de suas predilecções quotidianas. Duas tristes luzes alumiavam aquella pequena sala. Alguns momentos correram de profundo silêncio entre os tres. O primeiro que o rompeu foi o médico.
—Seu pai deixou testamento?
—Não sei, respondeu Estacio.
Camargo mordeu a ponta do bigode, duas ou tres vezes, gesto que lhe era habitual quando fazia alguma reflexão.
—É preciso procural-o,—continuou elle.—Quer que o ajude?
Estacio apertou-lhe affectuosamente a mão.
—A morte de meu pai,—disse o moço, não alterou nada as nossas relações. Subsiste a confiança anterior do mesmo modo que a amizade, ja provada e antiga.
A secretária estava fechada; Estacio deu a chave ao médico; este abriu o movel sem nenhuma commoção exterior. Interiormente estava abalado. O que se lhe podia notar nos olhos era uma viva curiosidade, expressão em que, aliás, nenhum dos outros reparou. Logo que começou a revolver os papeis, a mão do médico tornou-se mais febril. Quando achou o testamento, houve em seus olhos um breve lampejo, a que succedeu a serenidade habitual.
—É isso? perguntou Estacio.
Camargo não respondeu logo; olhou para o papel, como a querer adivinhar o conteudo. O silêncio foi muito demorado para não fazer impressão no moço, que alias nada disse, porque o attribuíra á commoção natural do amigo, em tão dolorosas circumstâncias.