Um sorriso de lástima foi a primeira resposta do médico.
—Meu caro Estacio,—disse, elle depois,—esse trocadilho de andorinhas e cabreiros é a cousa mais extraordinaria que eu esperava ouvir a um mathematico. Saiba que detesto egualmente a philosophia da obscuridade e a rhetorica dos poetas. Sobretudo gósto que me respondam em prosa quando falo em prosa.
—Parece-lhe que poetei? perguntou Estacio rindo.
—Despropositamente! Ora, eu falo de cousas sérias; e convem não confundir alhos, que são a metade prática da vida, com bugalhos, que são a parte ideológica e vã.
—Eu serei ideologo,
—Não tem direito de o ser.
—Pois bem, deixe-me com as minhas mathematicas, as minhas flôres, as minhas espingardas.
—Não! Ha de intercalar tudo isso com um pouco de política.
Puxando-o familiarmente pela gola do paleto, Camargo fel-o sentar ao pe de si, no banco que alli estava mais proximo. Depois falou. O novo discurso foi o mais longo que proferiu em todos os seus dias. Nenhuma das vantagens da vida pública deixou de ser apontada com uma complacencia de tentador; todas as glórias, pompas e satisfações da política, e não só as reaes, mas as ficticias ou duvidosas, foram inventariadas, pintadas, douradas e illuminadas pelo médico. Sua palavra revellou um poder de evocação, uma vehemencia, uma energia, que ninguem era capaz de suppor-lhe. O taciturno desabrochou tagarella. Para falar tanto e com tal fôrça era preciso que o animasse um grande sentimento ou um grande interesse.
Estacio, lisonjeado com a affeição que elle lhe mostrava, não teve ensejo de fazer essa reflexão. Nem se animou a repetir a recusa; adoptou o alvitre de deferir a resposta para outra occasião.