—Mas, doutor, insistiu D. Ursula, porque motivo nos não tranquillisa o espirito? Estou certa de que não se trata de um acto que desdoure a meu irmão; allude naturalmente a algum êrro no modo de entender... alguma cousa, que eu ignoro o que seja. Porque não fala claramente?
O médico viu que D. Ursula tinha razão; e que, a não dizer mais nada, melhor fôra ter-se calado de todo. Tentou dissipar a impressão de extranheza que deixára no ânimo dos dous; mas da hesitação com que falava concluiu Estacio que elle não podia ir além do que havia dito.
—Não precisamos de explicação nenhuma, interveiu o filho do conselheiro; amanhã saberemos tudo.
Nessa occasião entrou o padre Melchior. O médico sahiu ás 10 horas, ficando de voltar no dia seguinte, logo cedo. Estacio, recolhendo-se a seu quarto, murmurava consigo:
—Que êrro será esse? E que necessidade tinha elle de vir lançar-me este enigma no coração?
A resposta, se podesse ouvil-a, era dada nessa mesma occasião pelo proprio Dr. Camargo, ao entrar no carro que o esperava á porta:
—Fiz bem em preparar-lhes o espirito, pensou elle; o golpe, si o houver, ha de ser mais facil de soffrer.
O médico ia só; além disso, era noite, como sabemos. Ninguem pôde ver-lhe a expressão do rosto, que era fechada e meditativa. Exhumou o passado e devassou o futuro; mas de tudo o que reviu e anteviu nada foi communicado a ouvidos extranhos.
As relações do Dr. Camargo com a familia do conselheiro eram estreitas e antigas, como dissera Estacio. O médico e o conselheiro tinham a mesma edade: cincoenta e quatro annos. Conheceram-se logo depois de tomado o gráo, e nunca mais afrouxara o laço que os prendêra desde esse tempo.
Camargo era pouco sympathico á primeira vista, Tinha as feições duras e frias, os olhos prescrustadores e sagazes, de uma sagacidade incommoda, para quem encarava com elles, o que o não fazia attrahente. Fallava pouco e sêcco. Seus sentimentos não vinham á flor do rosto. Tinha todos os visiveis signaes de um grande egoista; comtudo, posto que a morte do conselheiro não lhe arrancasse uma lagryma ou uma palavra de tristeza, é certo que a sentiu devéras. Além disso, amava sobre todas as cousas e pessoas uma creatura linda,—a linda Eugenia, como lhe chamava,—sua filha unica e a flor de seus olhos; mas amava-a de um amor calado e recondito. Era difficil saber se Camargo professava algumas opiniões políticas ou nutria sentimentos religiosos. Das primeiras, se as tinha, nunca deu manifestação prática; e no meio das lutas de que fôra cheio o decennio anterior, conservara-se indifferente e neutral. Quanto aos sentimentos religiosos, a aferil-os pelas acções, ninguem os possuia mais puros. Era pontual no cumprimento dos deveres de bom catholico. Mas só pontual; interiormente era incredulo.