No fim do almôço, Melchior dirigiu-se para a sala de visitas, com Helena. Mendonça acompanhou-os. A resolução do padre estava assentada de raiz; elle acceitava aquelle casamento como um presente do ceu. Apenas entrados ha sala, travou das mãos de um e outro e lhes disse, com voz commovida:
—Promettem não zangar-se commigo?
—Por que? interrogou Mendonça com os olhos.
Helena baixára os seus.
—Promettem?
—Padre-mestre... começou Mendonça sem poder concluir a phrase.
O padre olhou silenciosamente para um e outro. Talvez hesitava falar; talvez buscava o melhor meio de dizer o que tinha no coração. Urgia romper o silêncio; fel-o com solemnidade:
—Serei duas vezes padre: segundo a natureza e segundo o Evangelho. Quando duas creaturas se merecem, é servir a Deus emprestar a voz ao coração que não ousa falar. O senhor ama ésta menina; leio-lhe dos olhos o sentimento que o arrasta para ella; são dignos um do outro. Se é a timidez que lhe fecha os labios, eu sou a voz da verdade e do amor infinito; se outro motivo, serei juiz complacente para escutal-o.
Ouvindo éstas palavras, Mendonça ficou aturdido e mudo. Não só a fortuna lhe chegava ás mãos, quando elle menos esperava, mas até escolhêra um caminho desusado e extranho. A realidade confundia-se alli cora o sonho. A presença de um terceiro era sufficiente motivo para acanhar os mais resolutos; accrescia a veste sacra do sacerdote que dava aquillo um ar de solemnidade e consagração. Mendonça recobrou enfim o uso dos sentidos; sua resposta unica e eloquente, foi estender a mão a Helena, gesto a que a moça correspondeu com simplesa e naturalidade.
—Não se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e póde dar-lhe a felicidade que lhe desejo a ella. Tambem Helena o fara venturoso, não? perguntou elle voltando-se para á moça.