Desde esse dia começou Thomé Gonçalves a notar a assiduidade do medico, e, não desejando outra cousa, porque lhe queria muito, fez tudo o que lhe lembrou por atal-o de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era completo; tanto a ideia de pagar, como as ideias co-relatas de credor, divida, saldo, e outras tinham-se-lhe apagado da memoria, constituindo-lhe assim um largo furo no espirito. Temo que se me argua de comparações extraordinarias, mas o abysmo de Pascal é o que mais promptamente veiu ao bico da penna. Thomé Gonçalves tinha o abysmo de Pascal, não ao lado, mas dentro de si mesmo, e tão profundo que cabiam n'elle mais de sessenta credores que se debatiam lá embaixo com o ranger de dentes da Escriptura. Urgia extrahir todos esses infelizes e entulhar o buraco.
Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para retemperal-o, começou a applicar-lhe a droga. Não bastava a droga; era mister um tratamento subsidiario, porque a cura operava-se de dous modos:—o modo geral e abstracto, restauração da ideia de pagar, com todas as noções co-relatas—era a parte confiada á droga; e o modo particular e concreto,{30} insinuação ou designação de uma certa divida e de um certo credor—era a parte do medico. Supponhamos que o credor escolhido era o sapateiro. O medico levava o doente ás lojas de sapatos, para assistir á compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a acção de pagar; fallava da fabricação e venda dos sapatos no resto do mundo, cotejava os preços do calçado n'aquelle anno de 1768 com o que tinha trinta ou quarenta annos antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes a casa de Thomé Gonçalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabelleireiro, o segeiro, o boticario, um a um, levando mais tempo os primeiros, pela razão natural de estar a doença mais arraigada, e lucrando os ultimos com o trabalho anterior, d'onde lhes vinha a compensação da demora.
Tudo foi pago. Não se descreve a alegria dos credores, não se transcrevem as bençãos com que elles encheram o nome do Dr. Jeremias. Sim, senhor, é um grande homem, bradavam em toda a parte. Parece cousa de feitiçaria, aventuravam as mulheres. Quanto ao Thomé Gronçalves, pasmado de tantas dividas velhas, não se fartava de elogiar a longanimidade dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela accumulação.{31}
—Agora, dizia-lhes, não quero contas de mais de oito dias.
—Nós é que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os credores.
Restava entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o proprio Dr. Jeremias, pelos honorarios d'aquelle serviço relevantes. Mas, ai delle! a modestia atou-lhe a lingua. Tão expansivo era de coração, como acanhado de maneiras; e planeou tres, cinco investidas, sem chegar a executar nada. E aliás era facil; bastava insinuar-lhe a divida pelo methodo usado em relação á dos outros; mas seria bonito? perguntava a si mesmo; seria decente? etc., etc. E esperava, ia esperando. Para não parecer que se lhe mettia á cara, entrou a rarear as visitas; mas o Thomé Gonçalves ia ao casebre da rua do Piolho, e trazia-o a jantar, a ceiar, a fallar de cousas estrangeiras, em que era muito curioso. Nada de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os credores... Mas os credores, ainda quando pudesse passar-lhes pela cabeça a ideia de ir lembrar a divida, não chegariam a fazel-o, porque a suppunham paga antes de todas. Era o que diziam uns aos outros, entre muitas formulas da sabedoria popular:—Matheus, primeiro os teus—A boa justiça começa por casa—Quem{32} é tolo pede a Deus que o mate, etc. Tudo falso; a verdade é que o Thomé Gonçalves, no dia em que fallecera, tinha um só credor no mundo:—o Dr. Jeremias.
Este, nos fins do seculo, chegára á canonisação.
—«Adeus, grande homem!» dizia-lhe o Matta, ex-sapateiro, em 1798, de dentro da sege, que o levava á missa dos carmelitas. E o outro, curvo de velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos pés:
—Grande homem, mas pobre diabo.
FIM DO LAPSO.