Gonçalves sorriu; elle não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que não tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre. Afinal, começára a converter-se á advocacia, já arrasoava autos, já minutava petições, já ia ás audiencias, tudo porque era preciso viver, dizia elle. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria longamente dos ditos d'elle, e das anecdotas, que ás vezes eram picantes demais. Eu, a principio, reprehendia-o em particular, mas acostumei-me a ellas. E depois, quem é que não perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que elle mesmo se foi refreando, e d'alli a algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás namorado, disse-lhe um dia; e elle, empallidecendo, respondeu que sim, e accrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensavel casar tambem. Eu, á mesa, fallei do assumpto.
—Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?
—É caçoada d'elle, interrompeu vivamente o Gonçalves.
Dei ao diabo a minha indiscrição, e não fallei mais n'isso; nem elle. Cinco mezes depois... A transição{45} é rapida; mas não ha meio de a fazer longa. Cinco mezes depois, adoeceu Rufina, gravemente, e não resistiu oito dias; morreu de uma febre perniciosa.
Cousa singular:—em vida, a nossa divergencia moral trazia a frouxidão dos vinculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina appareceu-me como a esposa que desce do Libano, e a divergencia foi substituida pela total fusão dos seres. Peguei da imagem, que enchia a minha alma, e enchi com ella a vida, onde outr'ora occupára tão pouco espaço e por tão pouco tempo. Era um desafio á má estrella; era levantar o edificio da fortuna em pura rocha indestructivel. Comprehendam-me bem; tudo o que até então dependia do mundo exterior, era naturalmente precario: as telhas cahiam com o abalo das redes, as sobrepellizes recusavam-se aos sachristães, os juramentos das viuvas fugiam com os dogmas dos amigos, as demandas vinham tropegas ou iam-se de mergulho; emfim, as crianças nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era immortal. Com ella podia desafiar o olhar obliquo do mau destino. A felicidade estava nas minhas mãos, presa, vibrando no ar as grandes azas de{46} condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direcção da noite e do silencio...
Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça inventariar uns objectos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora aberta, desde que ella morreu, cinco mezes antes. Achei uma multidão de cousas minusculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma oração de S. Cypriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um maço de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do Gonçalves... Meio dia! Urge acabar; o moleque póde vir, e adeus. Ninguem imagina como o tempo corre nas circumstancias em que estou; os minutos voam como se fossem imperios, e, o que é importante n'esta occasião, as folhas de papel vão com elles.
Não conto os bilhetes brancos, os negocios abortados, as relações interrompidas; menos ainda outros acintes infimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ella não existia na terra, e preparei-me desde hontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um{47} charuto, e debrucei-me á janella. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a miudo os pés. Conhecia-o de vista; era uma victima de grandes revezes, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Elle levantava os olhos para as janellas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de attracção, anterior e superior á vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bemaventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.
A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preoccupação d'este seculo, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miseria ou guerra de classes, crises da arte e da politica, nada vale, para elle, um par de botas. Elle fita-as, elle respira-as, elle reluz com ellas, elle calca com ellas o chão de um globo que lhe pertence. D'ahi o orgulho das attitudes, a{48} rigidez dos passos, e um certo ar de tranquillidade olympica... Sim, a felicidade é um par de botas.
Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiaes dirão que estou doudo, que o delirio do suicida define a clausula do testador; mas eu fallo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objecção de que era melhor gastar commigo as botas, que lego aos outros; não, porque seria unico. Distribuindo-as, faço um certo numero de venturosos. Eia, caiporas! que a minha ultima vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos!
FIM DO ULTIMO CAPITULO.