—Pae José, disse elle ao entrar, sinto-me hoje adoentado.
—Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...
—Não; já de manhã não estava bom. Vae á botica...
O boticario mandou alguma cousa, que elle tomou á noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que elle padecia do coração:—molestia grave e chronica. Pae José ficou atterrado, quando viu que o incommodo não cedera ao remedio, nem ao repouso, e quiz chamar o medico.
—Para que? disse o mestre. Isto passa.
O dia não acabou peor; e a noite supportou-a elle bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A visinhança, apenas soube do incommodo, não quiz outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visital-o. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um accrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticario lhe dava no gamão,—outro que eram amores. Mestre{54} Romão sorria, mas comsigo mesmo dizia que era o final.
—Está acabado, pensava elle.
Um dia de manhã, cinco depois da festa, o medico achou-o realmente mal; e foi isso o que elle lhe viu na physionomia por traz das palavras enganadoras:—Isto não é nada; é preciso não pensar em musicas...
Em musicas! justamente esta palavra do medico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalicio começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluidas. E então teve uma idéa singular:—rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.
—Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...