—Não me pregue outra peça como esta de andar de um logar para outro feito maluca. Que tenho eu com a camara? que me importam discursos que não entendo?
Sophia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de um dos secretarios. Muitos eram os olhos que a fitavam quando ella ia á camara, mas os do tal secretario tinham uma expressão mais especial, callida e supplice. Entende-se, pois, que ella não o recebeu de sopetão; póde mesmo entender-se que o procurou curiosa. Emquanto acolhia esse olhar legislativo ia respondendo á amiga, com brandura,{107} que a culpa era della, e que a sua intenção era boa, era restituir-lhe a posse de si mesma.
—Mas, se você acha que a aborreço não venha mais commigo, concluiu Sophia.
E, inclinando-se um pouco:
—Olha o ministro da justiça.
Marianna não teve remedio senão ver o ministro da justiça. Este aguentava o discurso do orador, um governista, que provava a conveniencia dos tribunaes correccionaes, e, incidentemente, compendiava a antiga legislação colonial. Nenhum aparte; um silencio resignado, polido, discreto e cauteloso. Marianna passeava os olhos de um lado para outro, sem interesse; Sophia dizia-lhe muitas cousas, para dar saida a uma porção de gestos graciosos. No fim de quinze minutos agitou-se a camara, graças a uma expressão do orador e uma replica da opposição. Trocaram-se apartes, os segundos mais bravos que os primeiros, e seguiu-se um tumulto, que durou perto de um quarto de hora.
Essa diversão não o foi para Marianna, cujo espirito placido e uniforme, ficou atarantado no meio de tanta e tão inesperada agitação. Ella chegou a levantar-se para sair; mas, sentou-se outra vez. Já agora estava disposta a ir ao fim, arrependida e{108} resoluta a chorar só comsigo as suas magoas conjugaes. A duvida começou mesmo a entrar nella. Tinha razão no pedido ao marido; mas era caso de doer-se tanto? era razoavel o espalhafato? Certamente que as ironias delle foram crueis; mas, em summa, era a primeira vez que ella lhe batêra o pé, e, naturalmente, a novidade irritou-o. De qualquer modo porém, fôra um erro ir revelar tudo á amiga. Sophia iria talvez contal-o a outras... Esta ideia trouxe um calafrio a Marianna; a indiscrição da amiga era certa; tinha-lhe ouvido uma porção de historias de chapéos masculinos e femininos, cousa mais grave do que uma simples briga de casados. Marianna sentiu necessidade de lisonjeal-a, e cobriu a sua impaciencia e zanga com uma mascara de docilidade hypocrita. Começou a sorrir tambem, a fazer algumas observações, a respeito de um ou outro deputado, e assim chegaram ao fim do discurso e da sessão.
Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sophia; e Marianna concordou que sim, mas sem impaciencia, e ambas tornaram a subir a rua do Ouvidor. A rua, a entrada no bond, completaram a fadiga do espirito de Marianna, que afinal respirou quando viu que ia caminho de casa. Pouco antes de{109} apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo sobre o que lhe contára; Sophia prometteu que sim.
Marianna respirou. A rola estava livre do gavião. Levava a alma doente dos encontrões, vertiginosa da diversidade de cousas e pessoas. Tinha necessidade de equilibrio e saude. A casa estava perto; á medida que ia vendo as outras casas e chacaras proximas, Marianna sentia-se restituida a si mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era aquelle o seu mundo; menos um vaso, que o jardineiro trocára de logar.
—João, bota este vaso onde estava antes, disse ella.