[CAPITULO II]
[EXPERIENCIA]
Os garotos alexandrinos não trataram os dous sabios com o escarneo dos garotos cypriotas. A terra era grave como a ibis pousada n'uma só pata, pensativa como a sphynge, circumspecta como as mumias, dura como as pyramides; não tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e côrte, que desde muito tinham noticia dos nossos dous amigos, fizeram-lhes um recebimento regio, mostraram conhecer seus escriptos, discutiram as suas idéas, mandaram-lhes muitos presentes, papyros, crocodilos, zebras, purpuras. Elles porém, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a philosophia bastava ao philosopho, e que o superfluo era um dissolvente. Tão nobre resposta encheu de admiração tanto aos sabios como aos principaes e á mesma plebe. E aliás, diziam os mais sagazes, que outra cousa se podia esperar de dous homens tão sublimes, que em seus magnificos tratados...
—Temos cousa melhor do que esses tratados,{117} interrompia Stroibus. Trago uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e as virtudes.
—Não é esse o officio dos deuses? objectava um.
—Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem é a syntaxe da natureza, eu descobri as leis da grammatica divina...
—Explica-te.
—Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando a minha doutrina estiver completa, divulgal-a-hei como a maior riqueza que os homens jámais poderão receber de um homem.
Imaginem a expectação publica e a curiosidade dos outros philosophos, embora incredulos de que a verdade recente viesse aposentar as que elles mesmos possuiam. Entretanto, esperavam todos. Os dous hospedes eram apontados na rua até pelas crianças. Um filho meditava trocar a avareza do pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varão, um varão os desvarios de uma dama, porque o Egypto, desde os Pharaós até aos Lagides, era a terra de Putiphar, da mulher de Putiphar, da capa de José, e do resto. Stroibus tornou-se a esperança da cidade e do mundo.{118}
Pythias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe: