[CAPITULO III]
[VICTORIA]
Emfim, venceu Stroibus! A experiencia provou a doutrina. A Pythias foi o primeiro que deu mostras da realidade do effeito, attribuindo-se umas tres idéas ouvidas ao proprio Stroibus; este, em compensação, furtou-lhe quatro comparações e uma theoria dos ventos. Nada mais scientifico do que essas estréas. As idéas alheias, por isso mesmo que não foram compradas na esquina, trazem um certo ar commum; e é muito natural começar por ellas antes de passar aos livros emprestados, ás gallinhas, aos papeis falsos, ás provincias, etc. A propria denominação de plagio é um indicio de que os homens comprehendem a difficuldade de confundir esse embryão da ladroeira com a ladroeira formal.
Duro é dizel-o; mas a verdade é que elles deitaram ao Nilo a bagagem metaphysica, e dentro de pouco estavam larapios acabados. Concertavam-se de vespera, e iam aos mantos, aos bronzes, ás amphoras de vinho, ás mercadorias do porto, ás boas{123} drachmas. Como furtassem sem estrepito, ninguem dava por elles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como fazel-o crêr aos outros? Já então Ptolomeu colligira na bibliotheca muitas riquezas e raridades; e, porque conviesse ordenal-as, designou para isso cinco grammaticos e cinco philosophos, entre estes os nossos dous amigos. Estes ultimos trabalharam com singular ardor, sendo os primeiros que entravam e os ultimos que sahiam, e ficando alli muitas noites, ao clarão da lampada, decifrando, colligindo, classificando. Ptolomeu, enthusiasmado, meditava para elles os mais altos destinos.
Ao cabo de algum tempo, começaram a notar-se faltas graves:—um exemplar de Homero, tres rolos de manuscriptos persas, dois de samaritanos, uma soberba collecção de cartas originaes de Alexandre, copias de leis athenienses, o 2º e o 3º livro da Republica de Platão, etc., etc. A auctoridade poz-se á espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um organismo superior, era naturalmente maior, e os dois illustres gatunos zombavam de espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este preceito philosophico de não sahir d'alli com as mãos vasias; traziam sempre alguma cousa, uma fabula, quando menos. Emfim, estando a sahir um{124} navio para Chypre, pediram licença a Ptolomeu, com promessa de voltar, cozeram os livros dentro de couros de hippopotamo, puzeram-lhe rotulos falsos, e trataram de fugir. Mas a inveja de outros philosophos não dormia; deu rebate ás suspeitas dos magistrados, e descobriu-se o roubo. Stroibus e Pythias foram tidos por aventureiros, mascarados com os nomes d'aquelles dous varões illustres; Ptolomeu entregou-os á justiça com ordem de os passar logo ao carrasco. Foi então que interveiu Herophilo, inventor da anatomia.
[CAPITULO IV]
[PLUS ULTRA!]
—Senhor, disse elle a Ptolomeu, tenho-me limitado até agora a escalpellar cadaveres. Mas o cadaver dá-me a estructura, não me dá a vida; dá-me os orgãos, não me dá as funcções. Eu preciso das funcções e da vida.
—Que me dizes? redarguiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de Stroibus?{125}
—Não, senhor; não quero estripar os ratos.