Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os seraphins que engrinaldavam o recem{3} chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar á entrada com os olhos no Senhor.
—Que me queres tu? perguntou este.
—Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do seculo e dos seculos.
—Explica-te.
—Senhor, a explicação é facil; mas permitti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor logar, mandai que as mais afinadas citharas e alaúdes o recebam com os mais divinos córos...
—Sabes o que elle fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
—Não, mas provavelmente é dos ultimos que virão ter comvosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vasia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma egreja. Estou cançado da minha desorganisação, do meu reinado casual e adventicio. É tempo de obter a victoria final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não accuseis de dissimulação... Boa idéa, não vos parece?
—Vieste dizel-a, não legitimal-a, advertiu o Senhor.{4}
—Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor proprio gosta de ouvir o applauso dos mestres. Verdade é que n'este caso seria o applauso de um mestre vencido, e uma tal exigencia... Senhor, desço a terra; vou largar a minha pedra fundamental.
—Vai.