—Nada, nada.
Era uma senhora, que passára rentesinha com a egreja, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol; ia pela rua da Misericordia acima. Para explicar a minha commoção, é preciso dizer que era a segunda vez que a via. A primeira foi no Prado Fluminense, dous mezes antes, com um homem que, pelos modos, era seu marido, mas tanto podia ser marido como pai. Estava então um pouco de espavento, vestida de escarlate, com grandes enfeites vistosos, e umas argolas demasiado grossas nas orelhas; mas os olhos e a bocca resgatavam o resto. Namorámos ás bandeiras despregadas. Se disser que sahi d'alli apaixonado, não metto a minha alma no inferno, porque é a verdade pura. Sahi tonto, mas sahi tambem desapontado, perdia-a de vista na multidão. Nunca mais pude dar com ella, nem ninguem me soube dizer quem fosse.
Calcule-se o meu enfado, vendo que a fortuna vinha trazel-a outra vez ao meu caminho, e que umas primas fortuitas não me deixavam lançar-lhe as mãos. Não será difficil calculal-o, porque estas primas de Sapucaia tomam todas as fórmas, e o leitor, se não as teve de um modo, teve-as de outro. Umas vezes copiam o ar confidencial de um cavalheiro informado{134} da ultima crise do ministerio, de todas as causas apparentes ou secretas, dissensões novas ou antigas, interesses aggravados, conspiração, crise. Outras vezes, enfronham-se na figura d'aquelle eterno cidadão que affirma de um modo ponderoso e abotoado, que não ha leis sem costumes, nisi lege sine moribus. Outras, afivellam a mascara de um Dangeau de esquina, que nos conta miudamente as fitas e rendas que esta, aquella, aquell'outra dama levara ao baile ou ao theatro. E durante esse tempo, a Occasião passa, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol: passa, dobra a esquina, e adeus... O ministerio esphacelava-se; malinas e bruxellas; nisi lege sine moribus...
Esteve a pique de dizer ás primas, que se fossem embora; moravamos na rua do Carmo, não era longe; mas abri mão da idéa. Já na rua pensei tambem em deixal-as na egreja, á minha espera, e ir ver se agarrava a Occasião pela calva. Creio mesmo que cheguei a parar um momento, mas rejeitei egualmente esse alvitre e fui andando.
Fui andando com ellas para o lado opposto ao da minha incognita. Olhei para traz repetidas vezes, até perdel-a n'uma das curvas da rua, com os olhos no chão, como quem reflecte, devaneia ou espera uma{135} hora marcada. Não minto dizendo que esta ultima idéa trouxe-me a emoção do ciume. Sou exclusivo e pessoal; daria um triste amante de mulheres casadas. Não importa que entre mim e aquella dama existisse apenas uma contemplação fugitiva de algumas horas; desde que a minha personalidade ia para ella, a partilha tornava-se-me insupportavel. Sou tambem imaginoso; engenhei logo uma aventura e um aventureiro, dei-me ao prazer morbido de affligir-me sem motivo nem necessidade. As primas iam adiante, e falavam-me de quando em quando; eu respondia mal, se respondia alguma cousa. Cordialmente, execrava-as.
Ao chegar á porta de casa, consultei o relogio, como si tivesse alguma cousa que fazer; depois disse ás primas que subissem e fossem almoçando. Corri á rua da Misericordia. Fui primeiro até á Escola de Medicina; depois voltei e vim até a Camara dos Deputados, então mais devagar, esperando vel-a ao chegar a cada curva da rua; mas nem sombra. Era insensato, não era? Todavia, ainda subi outra vez a rua, porque adverti que, a pé e de vagar, mal teria tempo de ir em meio da praia de Santa Luzia, se acaso não parára antes; e ahi fui, rua acima e praia fóra, até o convento da Ajuda. Não encontrei nada,{136} cousa nenhuma. Nem por isso perdi as esperanças; arripiei caminho e vim, a passo lento ou apressado, conforme se me afigurava que era possivel apanhal-a adiante, ou dar tempo a que sahisse de alguma parte. Desde que a minha imaginação reproduzia a dama, todo eu sentia um abalo, como se realmente tivesse de vel-a d'ahi a alguns minutos. Comprehendi a emoção dos doudos.
Entretanto, nada. Desci a rua sem achar o menor vestigio da minha incognita. Felizes os cães, que pelo faro dão com os amigos! Quem sabe se não estaria alli bem perto, no interior de alguma casa, talvez a propria casa d'ella? Lembrou-me indagar; mas de quem, e como? Um padeiro, encostado ao portal espiava-me; algumas mulheres faziam a mesma cousa enfiando os olhos pelos postigos. Naturalmente desconfiavam do transeunte, do andar vagaroso ou apressado, do olhar inquisidor, do gesto inquieto. Deixei-me ir até á Camara dos Deputados, e parei uns cinco minutos, sem saber que fizesse. Era perto de meio-dia. Esperei mais dez minutos, depois mais cinco, parado, com a esperança de vel-a; afinal, desesperei e fui almoçar.
Não almocei em casa. Não queria ver os demonios das primas, que me impediram de seguir a{137} dama incognita. Fui a um hotel. Escolhi uma mesa no fim da sala, e sentei-me de costas para as outras; não queria ser visto nem conversado. Comecei a comer o que me deram. Pedi alguns jornaes, mas confesso que não li nada seguidamente, e apenas entendi tres quartas partes do que ia lendo. No meio de uma noticia ou de um artigo, escorregava-me o espirito e cahia na rua da Misericordia, á porta da egreja, vendo passar a incognita, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol.
A ultima vez que me aconteceu essa separação da outra e da besta, estava já no café, e tinha diante de mim um discurso parlamentar. Achei-me ainda uma vez á porta da egreja; imaginei então que as primas não estavam commigo, e que eu seguia atraz da bella dama. Assim é que se consolam os preteridos da loteria; assim é que se fartam as ambições mallogradas.
Não me peçam minucias nem preliminares do encontro. Os sonhos desdenham as linhas finas e o acabado das paysagens; contentam-se de quatro ou cinco brochadas grossas, mas representativas. Minha imaginação galgou as difficuldades da primeira falla, e foi direita á rua do Lavradio ou dos Invalidos, á propria casa de Adriana. Chama-se Adriana.{138} Não viera á rua da Misericordia por motivos de amores, mas a ver alguem, uma parenta ou uma comadre, ou uma costureira. Conheceu-me, e teve egual commoção. Escrevi-lhe; respondeu-me. Nossas pessoas foram uma para a outra por cima de uma multidão de regras moraes e de perigos. Adriana é casada; o marido conta cincoenta e dous annos, ella trinta imperfeitos. Não amou nunca, não amou mesmo o marido, com quem casou por obedecer á familia. Eu ensinei-lhe ao mesmo tempo o amor e a traição; é o que ella me diz nesta casinha que aluguei fóra da cidade, de proposito para nós.