Ella era, porém, d'aquella casta de mulheres que riem do sol e dos almanaks. Côr de leite, fresca, inalteravel, deixava ás outras o trabalho de envelhecer. Só queria o de existir. Cabello negro, olhos castanhos e callidos. Tinha as espaduas e o collo feitos de encommenda para os vestidos decotados, e assim tambem os braços, que eu não digo que eram os da Venus de Milo, para evitar uma vulgaridade, mas provavelmente não eram outros. D. Camilla sabia d'isto; sabia que era bonita, não só porque lh'o dizia o olhar sorrateiro das outras damas, como por um certo instincto que a belleza possue, como o talento e o genio. Resta dizer que era casada, que o marido era ruivo, e que os dois amavam-se como noivos; finalmente, que era honesta. Não o era, note-se bem, por temperamento, mas por principio, por amor ao marido, e creio que um pouco por orgulho.
Nenhum defeito, pois, excepto o de retardar os annos; mas é isso um defeito? Ha, não me lembra em que pagina da Escriptura, naturalmente nos Prophetas, uma comparação dos dias com as aguas de um rio que não voltam mais. D. Camilla queria fazer uma represa para seu uso. No tumulto d'esta marcha continua entre o nascimento e a morte, ella apegava-se á illusão da estabilidade. Só se lhe podia exigir que{150} não fosse ridicula, e não o era. Dir-me-ha o leitor que a belleza vive de si mesma, e que a preoccupação do calendario mostra que esta senhora vivia principalmente com os olhos na opinião. É verdade; mas como quer que vivam as mulheres do nosso tempo?
D. Camilla entrou na casa dos trinta e não lhe custou passar adiante. Evidentemente o terror era uma superstição. Duas ou tres amigas intimas, nutridas de arithemetica, continuavam a dizer que ella perdera a conta dos annos. Não advertiam que a natureza era complice no erro, e que aos quarenta annos (verdadeiros), D. Camilla trazia um ar de trinta e poucos. Restava um recurso: espiar-lhe o primeiro cabello branco, um fiosinho de nada, mas branco. Em vão espiavam; o demonio do cabello parecia cada vez mais negro.
N'isto enganavam-se. O fio branco estava alli; era a filha de D. Camilla que entrava nos dezenove annos, e, por mal de peccados, bonita. D. Camilla prolongou, quanto poude, os vestidos adolescentes da filha, conservou-a no collegio até tarde, fez tudo para proclamal-a creança. A natureza, porem, que não é só immoral, mas tambem illogica, emquanto sofreava os annos de uma, afrouxava a redea aos da outra, e{151} Ernestina, moça feita, entrou radiante no primeiro baile. Foi uma revelação. D. Camilla adorava a filha; saboreou-lhe a gloria a tragos demorados. No fundo do copo achou a gotta amarga e fez uma carêta. Chegou a pensar na abdicação; mas um grande prodigo de phrases feitas disse-lhe que ella parecia a irmã mais velha da filha, e o projecto desfez-se. Foi d'essa noite em diante que D. Camilla entrou a dizer a todos que casára muito creança.
Um dia, poucos mezes depois, apontou no horisonte o primeiro namorado. D. Camilla pensára vagamente n'essa calamidade, sem encaral-a, sem apparelhar-se para a defeza. Quando menos esperava, achou um pretendente á porta. Interrogou a filha; descobriu-lhe um alvoroço indefinivel, a inclinação dos vinte annos, e ficou prostrada. Casal-a era o menos; mas, se os seres são como as aguas da Escriptura, que não voltam mais, é porque atraz d'elles vêm outros, como atraz das aguas outras aguas; e, para definir essas ondas successivas é que os homens inventaram este nome de netos. D. Camilla viu imminente o primeiro neto, e determinou adial-o. Está claro que não formulou a resolução, como não formulára a idéa do perigo. A alma entende-se a si mesma; uma sensação vale um raciocinio. As que ella teve foram rapidas,{152} obscuras, no mais intimo do seu ser, d'onde não as extrahiu para não ser obrigada a encaral-as.
—Mas que é que você acha de máo no Ribeiro? perguntou-lhe o marido, uma noite, á janella.
D. Camilla levantou os hombros.—Acho-lhe o nariz torto, disse.
—Máo! Você está nervosa; fallemos de outra cousa, respondeu o marido. E, depois, de olhar uns dous minutos para a rua, cantarolando na garganta, tornou ao Ribeiro, que achava um genro aceitavel, e se lhe pedisse Ernestina, entendia que deviam ceder-lh'a. Era intelligente e educado. Era tambem o herdeiro provavel de uma tia de Cantagallo. E depois tinha um coração de ouro. Contavam-se d'elle cousas muito bonitas. Na academia, por exemplo... D. Camilla ouviu o resto, batendo com a ponta do pé no chão e rufando com os dedos a sonata da impaciencia; mas, quando o marido lhe disse que o Ribeiro esperava um despacho do ministro de estrangeiros, um logar para os Estados-Unidos, não poude ter-se e cortou-lhe a palavra.
—O que? separar-me de minha filha. Não, senhor.
Em que dóse entrára n'este grito o amor materno e o sentimento pessoal, é um problema difficil de{153} resolver, principalmente agora, longe dos acontecimentos e das pessoas. Supponhamos que em partes eguaes. A verdade é que o marido não soube que inventar para defender o ministro de estrangeiros, as necessidades diplomaticas, a fatalidade do matrimonio, e, não achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois veiu a nomeação. No terceiro dia, a moça declarou ao namorado que não a pedisse ao pai, porque não queria separar-se da familia. Era o mesmo que dizer: prefiro a familia ao senhor. É verdade que tinha a voz tremula e sumida, e um ar de profunda consternação; mas o Ribeiro viu tão sómente a rejeição, e embarcou. Assim acabou a primeira aventura.