Lá vai elle agora, pela rua de Bragança, Prainha e Saude, até ao principio da Gambôa, onde mora{207} Genoveva. A casa é uma rotulasinha escura, portal rachado do sol, passando o cemiterio dos inglezes; lá deve estar Genoveva, debruçada á janella, esperando por elle. Deolindo prepara uma palavra que lhe diga. Já formulou esta: «jurei e cumpri» mas procura outra melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse mundo de Christo, italianas, marselhezas ou turcas, muitas d'ellas bonitas, ou que lhe pareciam taes. Concorda que nem todas seriam para os beiços d'elle, mas algumas eram, e nem por isso fez caso de nenhuma. Só pensava em Genoveva. A mesma casinha d'ella, tão pequenina, e a mobilia de pé quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo lhe lembrava deante dos palacios de outras terras. Foi á custa de muita economia que comprou em Trieste um par de brincos, que leva agora no bolso com algumas bugigangas. E ella que lhe guardaria? Pode ser que um lenço marcado com o nome d'elle e uma ancora na ponta, porque ella sabia marcar muito bem. N'isto chegou á Gambôa, passou o cemiterio e deu com a casa fechada. Bateu, fallou-lhe uma voz conhecida, a da velha Ignacia, que veiu abrir-lhe a porta com grandes exclamações de prazer. Deolindo, impaciente, perguntou por Genoveva.
—Não me falle n'essa maluca, arremetteu a{208} velha. Estou bem satisfeita com o conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse. Estava agora como o lindo amor.
—Mas que foi? que foi?
A velha disse-lhe que descançasse, que não era nada, uma d'essas cousas que apparecem na vida; não valia a pena zangar-se. Genoveva andava com a cabeça virada...
—Mas virada porque?
—Está com um mascate, José Diogo. Conheceu José Diogo, mascate de fazendas? Está com elle. Não imagina a paixão que elles têm um pelo outro. Ella então anda maluca. Foi o motivo da nossa briga. José Diogo não me sahia da porta; eram conversas e mais conversas, até que eu um dia disse que não queria a minha casa diffamada. Ah! meu pai do céu! foi um dia de juizo. Genoveva investiu para mim com uns olhos d'este tamanho, dizendo que nunca diffamou ninguem e não precisava de esmolas. Que esmolas, Genoveva? O que digo é que não quero esses cochichos á porta, desde as ave-marias... Dous dias depois estava mudada e brigada commigo.
—Onde mora ella?
—Na praia Formosa, antes de chegar á pedreira, uma rotula pintada de novo.{209}
Deolindo não quiz ouvir mais nada. A velha Ignacia, um tanto arrependida, ainda lhe deu avisos de prudencia, mas elle não os escutou e foi andando. Deixo de notar o que pensou em todo o caminho; não pensou nada. As idéas marinhavam-lhe no cerebro, como em hora de temporal, no meio de uma confusão de ventos e apitos. Entre ellas rutilou a faca de bordo, ensanguentada e vingadora. Tinha passado a Gambôa, o Sacco do Alferes, entrára na praia Formosa. Não sabia o numero da casa, mas era perto da pedreira, pintada de novo, e com auxilio da visinhança poderia achal-a. Não contou com o acaso que pegou de Genoveva e fel-a sentar á janella, cosendo, no momento em que Deolindo ia passando. Elle conheceu-a e parou; ella, vendo o vulto de um homem, levantou os olhos e deu com o marujo.
—Que é isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre, seu Deolindo.