[IV]
Agora a dama. No momento em que os vi fallar baixinho na egreja, Eulalia contava trinta e oito annos de edade. Juro-lhes que era ainda bonita. Não era pobre; os pais deixaram-lhe alguma cousa. Nem casada; recusou cinco ou seis pretendentes.
Este ponto nunca foi entendido pelas amigas. Nenhuma d'ellas era capaz de repellir um noivo. Creio até que não pediam outra cousa, quando resavam antes de entrar na cama, e ao domingo, á missa, no momento de levantar a Deus. Porque é que Eulalia recusava-os todos? Vou dizer desde já o que soube depois. Suppuzeram-lhe, a principio, um simples desdem,—nariz torcido, dizia uma d'ellas;—mas, no fim da terceira recusa, inclinaram-se a crer que havia namoro encoberto, e esta explicação prevaleceu.{224} A propria mãi de Eulalia não aceitou outra. Não lhe importaram as primeiras recusas; mas, repetindo-se, ella começou a assustar-se. Um dia, voltando de um casamento, perguntou á filha, no carro em que vinham, se não se lembrava que tinha de ficar só.
—Ficar só?
—Sim, um dia hei de morrer. Por ora tudo são flores; cá estou para governar a casa; e você é só ler, scismar, tocar e brincar; mas eu tenho de morrer, Eulalia, e você tem de ficar só...
Eulalia apertou-lhe muito a mão, sem poder dizer palavra. Nunca pensára na morte da mãi; perdel-a era perder metade de si mesma. Na expansão de momento, a mãi atreveu-se a perguntar-lhe se amava alguem e não era correspondida; Eulalia respondeu que não. Não sympathisara com os candidatos. A boa velha abanou a cabeça; fallou dos vinte sete annos da filha, procurou atterral-a com os trinta, disse-lhe que, se nem todos os noivos a mereciam egualmente, alguns eram dignos de ser aceitos, e que importava a falta de amor? O amor conjugal podia ser assim mesmo; podia nascer depois, como um fructo da convivencia. Conhecera pessoas que se casaram por simples interesse de familia e acabaram{225} amando-se muito. Esperar uma grande paixão para casar era arriscar-se a morrer esperando.
—Pois sim, mamãi, deixe estar...
E, reclinando a cabeça, fechou um pouco os olhos para espiar alguem, para ver o namorado encoberto, que não era só encoberto, mas tambem e principalmente impalpavel. Concordo que isto agora é obscuro; não tenho duvida em dizer que entramos em pleno sonho.
Eulalia era uma exquisita, para usarmos a linguagem da mãi, ou romanesca, para empregarmos a definição das amigas. Tinha, em verdade, uma singular organisação. Saiu ao pai. O pai nascera com o amor do enigmatico, do arriscado e do obscuro; morreu quando apparelhava uma expedição para ir á Bahia descobrir a «cidade abandonada». Eulalia recebeu essa herança moral, modificada ou aggravada pela natureza feminil. N'ella dominava principalmente a contemplação. Era na cabeça que ella descobria as cidades abandonadas. Tinha os olhos dispostos de maneira que não podiam apanhar integralmente os contornos da vida. Começou idealisando as cousas, e, se não acabou negando-as, é certo que o sentimento da realidade esgarçou-se-lhe até chegar á transparencia fina em que o tecido parece confundir-se com o ar.{226}
Aos dezoito annos, recusou o primeiro casamento. A razão é que esperava outro, um marido extraordinario, que ella viu e conversou, em sonho ou allucinação, a mais radiosa figura do universo, a mais sublime e rara, uma creatura em que não havia falha ou quebra, verdadeira grammatica sem irregularidades, pura lingua sem solecismos.