—Tambem o senhor? perguntou ella.

E as suas mãos apertaram-se com energia: entendiam-se. Não tendo achado um astro na loja de um relojoeiro, a culpa era do relojoeiro; tal era a logica de ambos. Olharam-se com a sympathia de naufragos,—naufragos e não desenganados—, porque não o eram. Crusoe, na ilha deserta, inventa e trabalha; elles não; lançados á ilha, estendiam os olhos para o mar illimitado, esperando a aguia que viria buscal-os com as suas grandes azas abertas. Uma era a eterna noiva sem noivo, outro o eterno propheta sem Israel; ambos punidos e obstinados.

Já disse que Eulalia era ainda bonita. Resta dizer que o padre Theophilo, com quarenta e dous annos tinha os cabellos grisalhos e as feições cançadas; as mãos não possuiam nem a maciez nem o aroma da{231} sacristia, eram magras e callosas e cheiravam ao matto. Os olhos é que conservavam o fogo antigo era por alli que a mocidade interior fallava cá para fóra, e força é dizer que elles valiam só por si todo o resto.

As visitas amiudaram-se. Afinal iamos passar alli as tardes e as noites e jantar aos domingos. A convivencia produziu dous effeitos, e até tres. O primeiro foi que os dous primos, frequentando-se, deram força e vida um ao outro; relevem-me esta expressão familiar:—fizeram um pique-nique de illusões. O segundo é que Eulalia, cançada de esperar um noivo humano, volveu os olhos para o noivo divino e, assim como ao primo viera a ambição de S. Paulo, veiu-lhe a ella a de Santa Thereza. O terceiro effeito é o que o leitor já adivinhou.

Já adivinhou. O terceiro foi o caminho de Damasco,—um caminho ás avessas, porque a voz não baixou do céu, mas subiu da terra; não chamava a prégar Deus, mas a prégar o homem. Sem metaphora, amavam-se. Outra differença é que a vocação aqui não foi subita como em relação ao apostolo das gentes; foi vagarosa, muito vagarosa, cochichada, insinuada, bafejada pelas azas da pomba mystica.{232}

Note-se que a faina precedeu ao amor. Sussurrava-se desde muito que as visitas do padre eram menos de confessor que de peccador. Era mentira; eu juro que era mentira. Via-os, acompanhava-os, estudava esses dous temperamentos tão espirituaes, tão cheios de si mesmos, que nem sabiam da fama, nem cogitavam no perigo da apparencia. Um dia vi-lhes os primeiros signaes do amor. Será o que quizerem, uma paixão quarentona, rosa outoniça e pallida, mas era, existia, crescia, ia tomal-os inteiramente. Pensei em avisar o padre, não por mim, mas por elle mesmo; mas era difficil, e talvez perigoso. Demais, eu era e sou gastronomo e psychologo; avisal-o era botar fóra uma fina materia de estudo e perder os jantares dominicaes. A psychologia, ao menos, merecia um sacrificio: calei-me.

Calei-me á toa. O que eu não quiz dizer, publicou-o o coração de ambos. Se o leitor me leu de corrida, conclue por si mesmo a anecdota, conjugando os dous primos: mas, se me leu de vagar, adivinha o que succedeu. Os dous mysticos recuaram; não tiveram horror um do outro nem de si mesmos, porque essa sensação estava excluida de ambos, mas recuaram, agitados de medo e de desejo.

—Volto para a roça, disse-me o padre.{233}

—Mas por que?

—Volto para o roça.