—Não sei... disse a senhora, chegando-se mais para a janella, com os dous nas mãos.

—Bota o outro, nhanhã.

A nhanhã obdeceu. Experimentou cinco chales dos dez que alli estavam, em caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram os melhores; mas aqui surgiu uma complicação—minima, realmente—mas tão subtil e profunda na solução, que não vacillo em recommendal-a aos nossos pensadores de 1906. A questão era saber qual dos dois chales escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse economica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De repente, lembrou-lhe a aleivosia do marido, a necessidade de mortifical-o, castigal-o, mostrar-lhe que não era peteca de ninguem, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou ambos os chales.

Ao bater das quatro horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem ás quatro, nem ás quatro e meia. Maria Olympia imaginava uma porção de{254} cousas aborrecidas, ia á janella, tornava a entrar, temia um desastre ou doença repentina; pensou tambem que fosse uma sessão do jury. Cinco horas, e nada. Os cachos da viuva tambem negrejavam diante d'ella, entre a doença e o jury, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a côr do diabo. Realmente era para exhaurir a paciencia de uma moça de vinte e seis annos. Tinte e seis annos; não tinha mais. Era filha de um deputado do tempo da Regencia, que a deixou menina; e foi uma tia que a educou com muita distincção. A tia não a levou muito cedo a bailes e expectaculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro á egreja. Maria Olympia tinha a vocação da vida exterior, e, nas procissões e missas cantadas, gostava principalmente do rumor, da pompa; a devoção era sincera, tibia e distrahida. A primeira cousa que ella via na tribuna das egrejas, era a si mesma. Tinha um gosto particular era olhar de cima para baixo, fitar a multidão das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que, por baixo do coro ou nas portas lateraes, temperavam com attitudes namoradas as ceremonias latinas. Não entendia os sermões; o resto, porém, orchestra, canto, flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo exercia n'ella um singular feitiço. Magra devoção, que escasseou ainda mais com{255} o primeiro expectaculo e o primeiro baile. Não alcançou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dansou á larga, e ganhou fama de elegante.

Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olympia, que então passeava na sala, tão depressa lhe ouviu os pés, fez o que faria qualquer outra senhora na mesma situação: pegou de um jornal de modas, e sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvão entrou offegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ella havia de agradecer, se soubesse...

—Não é preciso, interrompeu ella friamente. Levantou-se; foram jantar. Fallaram pouco; ella menos que elle, mas em todo o caso, sem parecer magoada. Póde ser que entrasse a duvidar da carta anonyma; póde ser tambem que os dous chales lhe pesassem na consciencia. No fim do jantar, Galvão explicou a demora; tinha ido, a pé, ao theatro Provisorio, comprar um camarote para essa noite: davam os Lombardos. De lá, na volta, foi encommendar um carro...

Os Lombardos? interrompeu Maria Olympia.

—Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; ha bailado. Você nunca ouviu os Lombardos?{256}

—Nunca.

—E ahi está porque me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia que eu lhe cortasse a ponta d'esse narizinho arrebitado...