Como da primeira vez, metteram-se no barco real, á noite, e deixaram-se ir aguas abaixo, ambos de{278} má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Quando as vaccas scintillantes da madrugada começaram de pisar vagarosamente o céo, proferiram elles o formula mysteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara, tornando ao seu, teve a commoção materna, como tivera a paterna, quando occupava o corpo de Kalaphangko. Parecia-lhe até que era ao mesmo tempo mãi e pai da creança.
—Pai e mãi? repetiu o principe restituido á fórma anterior.
Foram interrompidos por uma deleitosa musica, ao longe. Era algum junco ou piroga que subia o rio, pois a musica approximava-se rapidamente! Já então o sol alagava de luz as aguas e as margens verdes, dando ao quadro um tom de vida e renascença, que de algum modo fazia esquecer aos dous amantes a restituição psychica. E a musica vinha chegando, agora mais distincta, até que n'uma curva do rio, appareceu aos olhos de ambos um barco magnifico, adornado de plumas e flammulas. Vinham dentro os quatorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em côro mandavam aos ares o velho hymno: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a claridade do mundo»!{279}
A bella Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbogalhados de assombro. Não podia entender como é que quatorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camellos. Kalaphangko consultado por ella, não achou explicação. Se alguem descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do Oriente, mandando-lh'a em carta fechada, e, para maior segurança, sobrescriptada ao nosso consul em Changai, China.
FIM DAS ACADEMIAS DE SIÃO.
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