30 de junho.

Lá estive ma casa Aguiar. Não falamos de cousas velhas, mas só das futuras. No fim da noite adverti que falávamos todos, menos o casal recente; esse, depois de algumas palavras mal atadas, entrou a dizer de si mesmo, um dizer calado, espraiado e fundido. De quando em quando os dous davam alguma silaba á conversação, e logo tornavam ao puro silencio. Tambem tocaram piano. Tambem foram falar entre si ao canto da janela. Sós os quatro velhos,—o desembargador com os tres,—faziamos planos futuros.

Certo é que D. Carmo alguma vez acompanhou os dous com os seus olhos inquietos, como a perguntar-lhes que parte viriam elles ter no futuro que ella e nós imaginavamos; mas o receio de os interromper na felicidade tapava-lhe a boca, e a santa senhora contentava-se de os mirar e amar. Ao chá a conversação fez-se de todos, e Tristão referiu alguns casos de Lisboa, casos de politica e de recreação.

Vindo para caza acudiu-me em caminho uma ideia, indiscreta, de certo, mas felizmente não a disse a ninguem, e mal a deixo nesta folha de papel. A ideia é saber se Fidelia terá voltado ao cemiterio depois de cazada. Possivelmente, sim; possivelmente não. Não a censurarei, se não: a alma de uma pessoa pode ser estreita para duas afeições grandes. Se sim, não lhe ficarei querendo mal, ao contrario. Os mortos podem muito bem combater os vivos, sem os vencer inteiramente.


Sem data.

Hoje foi a ultima recepção dos Aguiares, e eu quiz despedir-me dos viajantes que embarcam depois de amanhã. Bastante gente, entre ella o Faria e D. Cesaria, e a viuva do corretor Miranda, ainda abatida. A nota geral da noite não era alegre, ao contrario: todos buscavam ir pelo tom da caza, que era tristonha. A propria Fidelia parecia definhar-se ao pé da amiga, e uma vez a mana Rita a foi achar que dizia á outra:

—D. Carmo, porque não vem comnosco? Ainda é tempo de comprar bilhetes, e se os não houver, Tristão adia viagem, e vamos no outro paquete.

D. Carmo respondia que não; sentia-se cançada e abatida.