A ultima reflexão é minha, não do desembargador Campos, e leva o unico fim de completar o retrato deste casal. Não é que a poesia seja necessaria aos costumes, mas pode dar-lhes graça. O que eu fiz então foi perguntar ao desembargador se taes creaturas tiveram algum resentimento da vida. Respondeu-me que um, um só e grande; não tiveram filhos.
—Mana Rita disse-me isso mesmo.
—Não tiveram filhos, repetiu Campos.
Ambos queriam um filho, um só que fosse, ella ainda mais que elle. D. Carmo possuia todas as especies de ternura, a conjugal, a filial, a maternal. Campos ainda lhe conheceu a mãe, cujo retrato, encaixilhado com o do pae, figurava na sala, e falava de ambos com saudades longas e suspiradas. Não teve irmãos, mas a afeição fraternal estaria incluida na amical, em que se dividia tambem. Quanto aos filhos, se os não teve, é certo que punha muito de mãe nos seus carinhos de amiga e de esposa. Não menos certo é que para essa especie de orfandade ás avessas, tem agora um paliativo.
—D. Fidelia?
—Sim, Fidelia e teve ainda outro que acabou.
Aqui referiu-me uma historia que apenas levará meia duzia de linhas, e não é pouco para a tarde que vae baixando; digamol-a depressa.
Uma das suas amigas tivera um filho, quando D. Carmo ia em vinte e tantos annos. Sucessos que o desembargador contou por alto e não valia a pena instar por elles, trouxeram a mãe e o filho para a casa Aguiar durante algum tempo. Ao cabo da primeira semana tinha o pequeno duas mães. A mãe real precisou ir a Minas, onde estava o marido; viagem de poucos dias. D. Carmo alcançou que a amiga lhe deixasse o filho e a ama. Taes foram os primeiros liames da afeição que cresceu com o tempo e o costume. O pae era comerciante de café,—comissario,—e andava então a negocios por Minas, a mãe era filha de Taubaté, S. Paulo, amiga de viajar a cavalo. Quando veiu o tempo de batizar o pequeno, Luiza Guimarães convidou a amiga para madrinha delle. Era justamente o que a outra queria; aceitou com alvoroço, o marido com prazer, e o batizado se fez como uma festa da familia Aguiar.
A meninice de Tristão,—era o nome de afilhado,—foi dividida entre as duas mães, entre as duas cazas. Os annos vieram, o menino crescia, as esperanças maternas de D. Carmo iam morrendo. Este era o filho abençoado que o acaso lhes deparára, disse um dia o marido; e a mulher, catolica tambem na linguagem, emendou que a Providencia, e toda se entregou ao afilhado. A opinião que o desembargador achou em algumas pessoas, e creio justa, é que D. Carmo parecia mais verdadeira mãe que a mãe de verdade. O menino repartia-se bem com ambas, preferindo um pouco mais a mãe postiça. A razão podiam ser os carinhos maiores, mais continuados, as vontades mais satisfeitas e finalmente os doces, que tambem são motivos para o infante, como para o adulto. Veiu o tempo da escola, e ficando mais perto da caza Aguiar, o menino ia jantar alli, e seguia depois para as Laranjeiras, onde morava Guimarães. Algumas vezes a própria madrinha o levava.
Nas duas ou tres molestias que o pequeno teve, a aflição de D. Carmo foi enorme. Uso o proprio adjetivo que ouvi ao Campos, com quanto me pareça enfatico, e eu não amo a enfasis. Confesso aqui uma cousa. D. Carmo é das poucas pessoas a quem nunca ouvi dizer que são «doudas por morangos», nem que «morrem por ouvir Mozart.» Nella a intensidade parece estar mais no sentimento que na expressão. Mas, emfim, o desembargador assistiu á ultima das molestias do menino, que foi em casa da madrinha, e pôde ver a aflição de D. Carmo, os seus afagos e sustos, alguns minutos de desespero e de lagrimas, e finalmente a alegria de restabelecimento. A mãe era mãe, e sentiu de certo, e muito, mas diz elle que não tanto; é que haverá ternuras atadas, ou ainda moderadas, que se não mostram inteiramente a todos.