—Não, é muito mais curta; diz-se em cinco minutos.

Tirei o relogio para ver a hora exata, e marcar o tempo da narração. Rita começou e acabou em dez minutos. Justamente o dobro. Mas o assunto era curioso, trata-se do cazamento, e a viuva interessa-me.

—Conheceram-se aqui na Corte, disse Rita; na roça nunca se viram. Fidelia passava uns tempos em casa do desembargador (a tia ainda era viva), e o rapaz. Eduardo, estudava na Escola de Medicina. A primeira vez que elle a viu foi das torrinhas do Teatro Lirico, onde estava com outros estudantes; viu-a á frente de um camarote, ao pé da tia. Tornou a vel-a, foi visto por ella, e acabaram namorados um do outro. Quando souberam quem eram, já o mal estava feito, mas provavelmente o mal se faria, ainda que o soubessem desde principio, porque a paixão foi repentina. O pae de Fidelia, vindo á Corte, teve noticia do caso pelo proprio irmão, que cautelosamente lhe disse o que desconfiava, e insinuou que era boa ocasião de fazerem as pazes as duas familias. O barão ficou furioso, pegou da moça e levou-a para a fazenda. Você não imagina o que lá se passou.

—Imagino, imagino.

—Não imagina.

—Pôl-a no tronco?

—Não, protestou Rita; não fez mais que ameaçal-a com palavras, mas palavras duras, dizendo-lhe que a poria fora de casa, se continuasse a pensar em tal atrevimento. Fidelia jurou uma e muitas vezes que tinha um noivo no coração e cazaria com elle, custasse o que custasse. A mãe estava do lado do marido, e opoz-se tambem. Fidelia resistiu e recolheu-se ao silencio, passava os dias no quarto, chorando. As mucamas viam as lagrimas e os sinaes dellas, e desconfiavam de amores, até que adivinharam a pessoa, se não foi palavra que ouviram aos proprios senhores. Emfim, a moça entrou a não querer comer. Vendo isto, a mãe, com receio de algum acesso de molestia, começou a pedir por ella, mas o marido declarou que não lhe importava vel-a morta ou até douda; antes isso que consentir na mistura do seu sangue com o da gente Noronha. A oposição da gente Noronha não foi menor. Ao saber da paixão do filho pela filha do fazendeiro, o pae de Eduardo mandou-lhe dizer que o deixaria na rua, se teimasse em semelhante afronta.

—Como inimigos eram dignos um do outro, observei.

—Eram, concordou Rita. O desembargador soube o que se passava e foi á fazenda, onde viu tudo confirmado, e disse ao irmão que não valia opor-se, porque a filha, chegada á maioridade, podia arrancar-se de caza. Ninguem obrigava a humilhar-se deante da gente Noronha, nem a fazer as pazes com ella; bastava que os filhos cazassem e fossem para onde quizessem. O barão recusou a pés juntos, e o desembargador dispunha-se a voltar para a Corte, sem continuar a comissão que se dera a si mesmo, quando Fidelia adoeceu deveras. A doença foi grave, a cura dificil pela recusa dos remedios e alimentos... Que sorriso é esse? Não acredita?

—Acredito, acredito; acho romanesco. Em todo caso, essa moça interessa-me. A cura, dizia você, foi dificil?