—É preciso desculpar a Tristão o que é proprio de rapaz, acudiu D. Carmo. Elle não é mau; esqueceu-se um pouco de nós, mas a idade e a novidade dos espectaculos explicam tudo. A prova é que ahi vem elle ver-nos, e se lêsse as cartas delle... Aguiar não lhe mostrou a ultima?

—Não, minha senhora, respondi; disse-me só o que continha.

—Talvez não dissesse tudo.

Cuido que quizesse mostrar-me as cartas do rapaz, uma só que fosse, ou um trecho, uma linha, mas o temor de enfadar fez calar o desejo. Foi o que me pareceu e deixo aqui escrito. Tornámos á viuva, depois voltámos a Tristão, e ella só passou a terceiro assunto porque a cortezia o mandou; eu, porém, para ir com a alma della, guiei a conversa novamente aos filhos postiços. Era o meu modo de ser cortez, com a boa senhora. Custa-me dizer que saí de lá encantado, mas saí, e mana Rita tambem. Rita disse-me na rua:

—Ha poucas creaturas como aquella.

—Creio, creio, é excelente... sem desfazer em você.

—Eu não, replicou Rita prontamente. Não me acho má, porém estou longe de ser o que ella é. Você repare que tudo naquella senhora é bom, até a opinião, que nem sempre é justa, porque ella perdoa e desculpa a todos. Eu não sou assim; acho muita gente má, e se fôr preciso dizel-o, digo. D. Carmo não é capaz de criticar ninguem. Algum reparo que aceite é sempre explicando; quando menos, calando.


24 de Junho.

Hontem conversei com a senhora do Aguiar ácerca das antigas noites de S. João, Santo Antonio e S. Pedro, e mais as suas sortes e fogueiras. D. Carmo pegou do assunto para tratar ainda do filho postiço. Leve o diabo tal filho. A filha postiça é que hade estar a esta hora mui triste no cazarão da fazenda, onde certamente passou as antigas noites de S. João de donzela esperançada e credula. A deste anno sem pae deve ser aborrecida, não tendo mãe que o continue, nem marido que os supra. Um tio não basta para tanta cousa.