2 de Agosto.
Aguiar mostrou-me uma carta de Fidelia a D. Carmo. Letra rasgada e firme, estilo correntio, linguagem terna; promete-lhes vir para a Corte logo que possa e será breve. Estou cançado de ouvir que ella vem, mas ainda me não cancei de o escrever nestas paginas de vadiação. Chamo-lhes assim para divergir de mim mesmo. Já chamei a este Memorial um bom costume. Ao cabo, ambas as opiniões se podem defender, e, bem pensado, dão a mesma cousa. Vadiação é bom costume.
A carta de Fidelia começa por estas tres palavras: «Minha querida mãesinha», que deixaram D. Carmo morta de ternura e de saudades; foi a propria expressão do marido. Nem tudo se perde nos bancos; o mesmo dinheiro, quando alguma vez se perde, muda apenas de dono.
3 de Agosto.
Hoje fazia annos o ministerio Ferraz, e quem já pensa nelle nem nos homens que o compunham e lá vão, uns na morte, outros na velhice ou na inação? Foi elle que me promoveu a secretario de legação, sem que eu lh'o pedisse e até com espanto meu.
Dizendo isto ao Aguiar, ouvi-lhe anedotas politicas daquelle tempo (1859-1861), contadas com animação, mas saudade. Aguiar não tem costela de homem publico; todo elle é familia, todo espozo, e agora tambem filhos, os dous filhos postiços,—Tristão mais que Fidelia, pela razão que penso haver já dito. Confirmou-me as boas impressões do desembargador, e concluiu:
—Conselheiro, já falou ao nosso Tristão, já o ouviu, e creio aprecial-o, mas eu dezejo que o conheça mais para aprecial-o melhor. Elle fala da sua pessoa com grande respeito e admiração. Diz que um dia o viu em Bruxellas, e estava longe de crer que viria achal-o e falar-lhe aqui.
—Já me disse isso mesmo. Acho que é um moço muito distinto.