—Um, dous, tres, doutor, acudi eu, quantos a sua amizade pedir para o seu apetite.

Deu-me noticias da gente Aguiar; estão bons; falou-me dos seus e das cartas politicas de Lisboa. Já as leu ao padrinho e á madrinha. Uma só dellas alude ao desejo de o ver tornar breve: «esperamos que não se demorará muito no Rio de Janeiro.»

—E demora-se muito? perguntei-lhe.

—Não sei, mas é natural que pouco; a politica chama-me.

Ao almoço é que Tristão me contou a historia da tela que a viuva está pintando, da promessa que fez á amiga e não cumpriu. E disse-me depois:

—Se ella sabe pintar pareceu-me que, melhor quadro que o seu jardim, é um trecho marinho do Flamengo, por exemplo, com a serra ao longe, a entrada da barra, alguma das ilhas, uma lancha, etc. A madrinha concordou logo, e foi propor á amiga a troca do quadro. Agradou-lhe este outro, prometeu vir ao Flamengo dezenhal-o, e não veiu.

—É que está namorada do seu jardim. Geralmente os artistas sentem melhor as proprias imaginações. Ella ainda saberá pintar, como diz que pintou em menina?

—A madrinha viu-lhe apenas algumas linhas de dezenho, e pareceram-lhe boas.

Concordamos que deviam ser boas. Uma cousa traz outra, falamos das graças da viuva, da compostura, da discrição, da memoria das viagens, do gosto, dos gestos e creio que dos olhos tambem. Eu, com certeza, falei dos olhos, e agora me lembra que elle disse serem juntamente lindos e graves. Opinião ou diversão, acrescentou que os olhos das suas antigas patricias eram em geral bellos, e falou compridamente de outras damas; assim não parecia louvar somente a viuva Noronha. Achei isto bem, como equidade e como estetica. No meio da conversação tive uma ideia; disse-lhe que D. Carmo, que lhes queria tanto, em vez de propor á amiga a simples tela da praia, devia propor-lh'a com alguma figura humana. A delle ficaria bem para lhe lembrar, quando elle partisse, a pessoa do filho pintada pela filha. Tristão ouviu sorrindo isto que lhe disse; depois repetiu, como quem pensava:

—A pessoa do filho pintada pela filha...