29 de Outubro.
O resto da noite foi passado em casa do Faria. Eram annos delle e estive lá mais tempo do que contava. Havia gente e alegria, algum canto e piano, e tambem conversa.
Faria, apezar do dia e da festa, ria mal, ria sério, ria aborrecido, não acho forma de dizer que exprima com exação a verdade. É um desses homens nascidos para enfadar, todo arestas, toda secura. A mulher, D. Cesaria, estava alegre e tinha a pilheria do costume. Não disse mal de ninguem por falta de tempo, não de materia, creio; tudo é materia a linguas agudas. A maneira porque aprovava alguma cousa era quasi sarcastica; e dificil de entender a quem não tivesse a pratica e o gosto destas creaturas, como eu, velho maldizente que sou tambem. Ou serei o contrario, quem sabe? No primeiro dia de chuva implicante heide fazer a analise de mim mesmo.
Quando saí de lá, Faria agradeceu-me, com o seu prazer nasal e surdo,—assim defino as palavras que lhe ouvi, acompanhadas de um fugaz sorriso de carcere.
1 de Novembro.
Este é o dia de todos os santos; amanhã é o de todos os mortos. A egreja andou bem marcando uma data para comemorar os que se foram. No tumulto da vida e suas seduções, fique um dia para elles... A reticencia que ahi deixo exprime o esforço que fiz para acabar esta pagina em melancolia; não posso, nunca pude. Tristezas não são commigo. Entretanto, em rapaz,—quando fiz versos, nunca os fiz se não tristissimos. As lagrimas que verti então,—pretas, porque a tinta era preta,—podiam encher este mundo, valle dellas.
2 de Novembro.
Mana Rita foi hoje ao cemiterio levar flores aos nossos.