—Gostei muito. Está adeantada?
—Está.
—A artista não tem parado?
—Não; vae lá todos os dias e pinta com amor.
—Com amor? Essa é a corda principal della. Não sei se já lhe disse que o que me encanta na afeição que ella tem aos senhores, e particularmente a D. Carmo, é o toque de subordinação graciosa, que lhe dá totalmente um ar de filha. É isso, é a obediencia discreta e pontual com que que ella acode aos dezejos dos seus paes de coração.
—Diz bem, conselheiro.
Estavamos no Tezouro, aonde fomos por negocios, e saimos dali a pé, caminho do Rocio, a pegar um bonde, mas não pegámos nada. A conversação foi o melhor vehiculo; é desses que tem as rodas surdas e rapidas, e fazem andar sem solavancos. Viemos descendo, a continuar o assunto, e a dizer cousas interessantes; eu, pelo menos, porque elle vivia mais nos olhos e nos ouvidos que na boca. Ouvia com atenção, e alguma vez com desatenção; no segundo caso, era todo olhos, mas tão alongados, que esqueciam a rua e o companheiro.
Uma das confidencias que me fez merece ser posta aqui. Para me dar razão no que lhe disse da subordinação graciosa da viuva, referiu-me que as duas costumavam ir á missa, ao domingo, na matriz da Gloria; a viuva vinha sempre acompanhar D. Carmo ao Flamengo, donde tornava logo para Botafogo, se não almoçava com elles.
—Carmo, para a não obrigar a vir tão longe, ia algum domingo ouvir missa a Botafogo, mas Fidelia vinha quasi sempre á Gloria.
—E agora já não vem?