—Acho.
—Tambem assim penso; independentemente da cegueira que me daria a paixão, vejo claro que a escolha é perfeita. Já tivemos ocasião de falar nella, e combinámos no parecer. Digo-lhe até que foi esse o motivo que me levou a confessar-me hoje. Lembra-se que ha algum tempo, em sua caza, almoçando...? Concordámos em achar-lhe todas as prendas moraes e fisicas. Comprehendi que me aprovaria, e resolvi falar-lhe á cerca deste sentimento e seus efeitos.
—A resposta estava dada, como diz; não ha consulta nova.
—Ha; ainda lhe não disse tudo.
—Pois diga o resto. Disponho-me a ouvil-o, como se eu mesmo fosse rapaz. Gosta della ha muito tempo?
—Logo que cheguei comecei a gostar della.
—Não reparei.
—Nem ella, nem eu tambem. Senti que lhe achava alguma cousa, mas a austeridade de viuva e a minha proxima volta não deixavam entender bem o que era. Poderia ser dessas preferencias que se dão a mulheres, não havendo plano nem possibilidade de as receber na vida. Alem dessa cousa, gostava de a ouvir falar, de lhe comunicar ideias e observações, e todas as nossas conversas eram interessantes. Os seus modos, aquelle gesto de acordo manso e calado, tudo me prendia. Um dia entrei a pensar nella com tal insistencia que desconfiei. Recorda-se quando resolvi ir á fazenda de Santa-Pia com ella e o tio?
—Recordo-me.
—Era já a dificuldade de ficar aqui sem ella, não sabia porquanto tempo; e depois contava que na roça, mais a sós, chegaria a fazer-lhe sentir tudo, o que me pezava e dispol-a a ouvir-me. Resolução perdida; ella não foi e eu tive de acompanhar o desembargador sozinho; pouco depois voltei...