3 de Dezembro.
Ayres amigo, confessa que ouvindo ao moço Tristão a dor de não ser amado, sentiste tal ou qual prazer, que aliás não foi longo nem se repetiu. Tu não a queres para ti, mas terias algum desgosto em a saber apaixonada delle; explica-te se podes, não podes. Logo depois entraste em ti mesmo, e viste que nenhuma lei divina impede a felicidade de ambos, se ambos a quizerem ter juntos. A questão é querel-o, e ella parece que o não quer.
5 de Dezembro.
A marinha está quasi prompta. Mana Rita veiu encantada da tela, da autora e da dona, porque Fidelia destina a obra a D. Carmo. Esteve só com as duas amigas; não achou lá Tristão nem Aguiar, e conversaram as tres longamente, até que a viuva se despediu e tornou para Botafogo, apezar de instada para jantar no Flamengo; não podia e partiu antes de cair a tarde.
Rita ficou e ainda bem que ficou, porque ouviu a D. Carmo a noticia do amor de Tristão, com um acrescimo que aqui vae para ligar ao que escrevi nestes ultimos dias. Esse acrescimo é nada menos que o desejo de D. Carmo é de os ver cazados.
—Digo isto só á senhora e peço-lhe que não conte a ninguem, acabou D. Carmo, eu gostaria de os ver cazados, não só porque se merecem, como pela amizade que lhes tenho e que elles me pagam do mesmo modo.
Rita achou que D. Carmo dizia verdade, e achou mais que, cazando-os, teria assim um meio de prender o filho aqui. A mana é dessas pessoas que não pedem reter o que pensam, e confiou logo o achado á amiga. D. Carmo sorriu com expressão de acordo; e foi o que pensou e me disse a propria Rita. Tambem assim me pareceu, mas eu quiz deitar a minha gota de fel do costume, e disse:
—Talvez a terceira razão seja a principal, se não foi unica.