E ria, de um riso grosso, rasteiro e frivolo. Sabina empallideceu e olhou para mim, receiosa de alguma replica; mas sorriu, quando me viu sorrir, e voltou o rosto para disfarçal-o. As outras pessoas olhavam-me com um ar de curiosidade, indulgencia e sympathia; era transparente que não acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava mais publico do que eu podia suppor. E entretanto sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso,—palreiro como as pegas de Cintra. Virgilia era um bello erro, e é tão facil confessar um bello erro! Costumava ficar carrancudo, a principio, quando ouvia alguma allusão aos nossos amores; mas, palavra de honra! sentia cá dentro uma impressão suave e linsongeira. Uma vez, porém, aconteceu-me sorrir, e continuei a fazel-o das outras vezes. Não sei se ha ahi algum Hobbes ou Spinoza, que explique o phenomeno. Eu explico-o assim: a principio, o contentamento, sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado; andando o tempo, desabotou-se em flor, e appareceu aos olhos do proximo. Simples questão de botanica.
[CAPITULO LXXXIII]
13
O Cotrim tirou-me daquelle gozo, levando-me á janella.—Você quer que lhe diga uma cousa? perguntou elle;—não faça essa viagem; é insensata, é perigosa.
—Porque?
—Você bem sabe porque, tornou elle: é, sobretudo, perigosa, muito perigosa. Aqui na côrte, um caso desses perde-se na multidão da gente e dos interesses; mas na provincia muda de figura; e tratando-se de personagens politicos, é realmente insensatez. As gazetas de opposição, logo que farejarem o negocio, passam a imprimil-o com todas as lettras, e ahi virão as chufas, os remoques, as alcunhas...
—Mas não entendo...
—Entende, entende; e, na verdade, seria bem pouco amigo nosso, se me negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso ha longos mezes. Repito, não faça semelhante viagem; supporte a ausencia, que é melhor, e evite algum grande escandalo e maior desgosto...
Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina,—um antigo lampião de azeite,—triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação. Que me cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me á fortuna, ou lutar com ella e subjugal-a. Por outros termos: embarcar ou não embarcar. Esta era a questão. O lampião não me dizia nada. As palavras do Cotrim resoavam-me aos ouvidos da memoria, de um modo bem diverso do das palavras do Garcez. Talvez o Cotrim tivesse razão: mas podia eu separar-me de Virgilia?