Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade; eu entrei a amar Virgilia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ella. Assim, a presidencia não fez mais do que avivar a affeição primitiva; foi a droga de Malabar, com que tornámos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambem. Nos primeiros dias, depois daquelle incidente, folgavamos de imaginar a dôr da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de outro, á proporção que o mar, como uma toalha elastica, se fosse dilatando entre nós; e, semelhantes ás crianças, que se achegam ao regaço das mães, para fugir a uma simples careta, fugiamos do supposto perigo, apertando-nos com abraços.

—Minha boa Virgilia!

—Meu amor!

—Tu és minha, não?

—Tua, tua...

E assim reatámos o fio da aventura, como a sultana Scheherazade o dos seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto maximo do nosso amor, o cimo da montanha, donde por algum tempo divisámos os valles de leste e de oeste, e por cima de nós o ceu tranquillo e azul. Repousado esse tempo, começámos a descer a encosta, com as mãos presas ou soltas, mas a descer, a descer...


[CAPITULO LXXXVI]

O mysterio

Serra abaixo, como eu a visse um pouco differente, não sei se abatida ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de enfado, de máu estar, de fadiga; ateimei, ella disse-me que... Um fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensação forte; rapida, singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza de zephyro e uma gravidade de Abrahão. Ella estremeceu, colheu-me a cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois affagou-me com um gesto maternal...Eis ahi um mysterio; deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mysterio.