—Que mysterio?

—De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.

A Razão poz-se a rir.

—Has de ser sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa...

E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fóra; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas supplicas; ainda grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a lingua de fóra, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente andará até á consummação dos seculos.


[CAPITULO IX]

Transição

E vejam agora com que destreza, com que fina arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delirio começou em presença de Virgilia; Virgilia foi o meu grão peccado da juventude; não ha juventude sem meninice; meninice suppõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura apparente, nada que divirta a attenção pausada do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do methodo, sem a rigidez do methodo. Na verdade, era tempo. Que isto de methodo, sendo, como é, uma cousa indispensavel, todavia é melhor tel-o sem gravata nem suspensorios, mas um pouco á fresca e á solta, como quem não se lhe dá da visinha fronteira, nem do inspector de quarteirão. É como a eloquencia, que ha uma genuina e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engommada e chocha. Vamos ao dia 20 de Outubro.