—Tambem o senhor; e o seu criado, não menos, se é seu criado esse homem que alli está sacudindo os tapetes á janella.

De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto nós falavamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que elle escancarára as janellas todas, desde longo tempo, que alçára as cortinas, que devassára o mais possivel a sala, ricamente alfaiada, para que a vissem de fóra, e concluiu:—Este seu criado tem a mania do atheniense: crê que os navios são delle; uma hora de illusão que lhe dá a maior felicidade da terra.


[CAPITULO CLV]

Reflexão cordial

—Se o alienista tem razão, disse eu commigo, não haverá muito que lastimar o Quincas Borba; e uma questão de mais ou de menos. Comtudo, é justo cuidar delle, e evitar que lhe entrem no cerebro maniacos de outras paragens.


[CAPITULO CLVI]

Orgulho tem servilidade

O Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu criado.—Póde-se, por imagem, disse elle, attribuir ao teu criado a mania de atheniense; mas imagens não são idéas nem observações tomadas á natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da servilidade. A intenção delle é mostrar que não é criado de qualquer.—Depois chamou a minha attenção para os cocheiros de casa grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja solicitude obedece ás variações sociaes da freguezia, etc. E concluiu que era tudo a expressão daquelle sentimento delicado e nobre,—prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime.