—Porque?
—Porque ... não sei porque ... porque é a minha sina ... creio ás vezes que é melhor morrer...
Tinham penetrado n'uma pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O Villaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volupia.
—Deixe-me, disse ella.
—Ninguem nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéas são essas! Você sabe que eu morrerei tambem ... que digo?... morro todos os dias, de paixão, de saudades...
D. Eusebia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memoria algum pedaço litterario, e achou este, que mais tarde verifiquei ser de uma das operas do Judeu:
—Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.
Disse isto; puxou-a para si; ella resistiu um pouco, mas deixou-se ir; uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais medroso dos beijos.
—O Dr. Villaça deu um beijo em D. Eusebia! bradei eu correndo pela chacara.
Foi um estouro esta minha palavra; a estupefacção immobilisou a todos; os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos, segredos, á socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno. Meu pae puxou-me as orelhas, disfarçadamente, irritado devéras com a indiscrição; mas no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso, sacudiu-me o nariz, a rir:—Ah! brejeiro! ah! brejeiro!