Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lançado ao mar, com as ceremonias do costume. A tristeza murchára todos os rostos; o do viuvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, fechou-se,—uma leve ruga,—e a galera foi andando. Eu deixei-me estar alguns minutos, á popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em que ficava um de nós... Fui dalli ter com o capitão, para distrahil-o.
—Obrigado, disse-me elle comprehendendo a intenção; creia que nunca me esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lh'os ha de pagar. Pobre Leocadia! tu te lembrarás de nós no céu.
Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na poesia, que era a paixão delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera, e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capitão animaram-se um pouco.—Talvez aceite, disse elle; mas não sei... são bem frouxos versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e me désse antes do desembarque.
—Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver... o mar... o céu... o navio...
No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da mulher; leu-m'o com a voz commovida devéras, e a mão tremula; no fim perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera.
—São, disse eu.
—Não haverá estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem me negará sentimento, se não é que o proprio sentimento prejudicou a perfeição....
—Não me parece; acho os versos perfeitos.
—Sim, eu creio que... Versos de marujo.
—De marujo poeta.