—Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.
E era verdade; se o jumento corre por alli fóra, contundia-me devéras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro; e lá se me ia a bacharelice em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom almocreve! emquanto eu tornava á consciencia de mim mesmo, elle cuidava de concertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi dar-lho tres moedas de ouro das cinco que trazia commigo; não porque tal fosse o preço da minha vida,—essa era inestimavel; mas por que era uma recompensa digna da dedicação com que elle me salvou. Está dito, dou-lhe as tres moedas.
—Prompto, disse elle apresentando-me a redea da cavalgadura.
—Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim...
—Ora qual!
—Pois não é certo que ia morrendo?
—Se o jumento corre por ahi fóra, é possivel; mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.
Fui aos alforges, tirei um collete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com effeito, uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe a roupa; era um pobre diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir á luz do sol; não a viu o almocreve, por que eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o talvez, entrou a fallar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse juizo, que o «senhor doutor» podia castigal-o; um monologo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.
—Olé! exclamei.
—Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com tanta graça...