[CAPITULO XLI]
A allucinação
E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim dos comprimentos disse-me a moça com sequidão:
—Esperavamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moça? Fitei-a muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle, ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella, stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.
Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus proprios pés. Devia, saír ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto della algum vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.
—Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistencia.
—Tão bonita, nunca.
Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica.