[CAPITULO LII]

O embrulho mysterioso

Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam,—um pescador curava as redes ainda mais longe,—ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.

Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco adeante, desandei o caminho e guiei para casa.

—Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.

E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco contos,—eu, que era abastado.

Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves, que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado; elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.

De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos beneficios da Providencia.

—Estes cinco contos, dizia eu commigo, tres semanas depois, hei de empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra cousa assim... hei de ver...