—Não quero saber onde móra, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo que está impaciente.

—Adeus!

—E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?

E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora, entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo...

—Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.

Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba furtára-m'o no abraço.


[CAPITULO LXI]

Um projecto

Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa, para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.