Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia, em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente o resto.
Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;—dalli para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros, sem escutas,—um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só affeição,—a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das que me eram contrarias.
[CAPITULO LXVIII]
O vergalho
Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas unicas palavras:
—«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.
—Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado!
—Meu senhor! gemia o outro.
—Cala a boca, besta! replicava o vergalho.