Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa maneira de a explicar.
—Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer Tartaros.
Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.
[CAPITULO LXX]
D. Placida
Voltemos á casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, ennegreceu, apodreceu, e o proprietario deitou-a abaixo para substituil-a por outra, tres vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas.
E vejam agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravez dos espaços, como uma lancha de naufragos, que vae dar á costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que soffreu um casal de peccados. Amanhã pode lá dormir um ecclesiastico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de terra, que lhes deu algumas illusões.
Virgilia fez daquillo um brinco; designou as alfaias mais idoneas, e dispol-as com a intuição esthetica da mulher elegante; eu levei para lá alguns livros; e tudo ficou sob a guarda de D. Placida, supposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa.
Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejára a intenção, e doia-lhe o officio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a principio: tinha nojo de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dous mezes; falava-me com elles baixos, séria, carrancuda, ás vezes triste. Eu queria angarial-a, e não me dava por offendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevolencia, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei uma historia pathetica dos meus amores com Virgilia, um caso anterior ao casamento, a resistencia do pae, a dureza do marido, e não sei que outros toques de novella. D. Placida não rejeitou uma só pagina da novella; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciencia. Ao cabo de seis mezes quem nos visse a todos tres juntos diria que D. Placida era minha sogra.