Levantei-me, atirei o chapeu a uma cadeira, e entrei a passeiar de um lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e não achei nada. Emfim, cheguei-me a Virgilia, que estava sentada, e travei-lhe da mão; D. Placida foi á janella.

—Nesta pequenina mão está toda a minha existencia, disse eu; voce é responsavel por ella; faça o que lhe parecer.

Virgilia teve um gesto afflictivo; eu fui encostar-me ao consolo fronteiro. Decorreram alguns instantes do silencio; ouviamos sómente o latir de um cão, e não sei se o rumor da agua, que morria na praia. Vendo que não falava, olhei para ella. Virgilia tinha os olhos no chão, parados, sem luz, as mãos deixadas sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na attitude da suprema desesperança. N'outra occasião, por differente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés della, e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém, era preciso compellil-a ao esforço de si mesma, ao sacrificio, á responsabilidade da nossa vida commun, e conseguintemente desamparal-a, deixal-a, e saír; foi o que fiz.

—Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu.

Virgilia quiz agarrar-me, mas eu já estava fóra da porta. Cheguei a ouvir um proromper de lagrimas, e digo-lhes que estive a ponto de voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e saí.


[CAPITULO LXXIX]

Compromisso de gato

Não acabaria se houvesse de contar pelo miudo o que padeci nas primeiras horas. Vacillava entre um querer e um não querer, entre a piedade que me empuxava á casa de Virgilia e outro sentimento,—egoismo, supponhamos,—que me dizia:—Fica; deixa-a a sós com o problema, deixa-a que ella o resolverá no sentido do amor. Creio que essas duas forças tinham egual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. Ás rezes sentia um dentesinho de remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada sacrificar nem arriscar de mim proprio; e, quando ia a capitular, vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho egoista, e eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso do a ver, e receioso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solução.

Por fim interveiu um compromisso entre o egoismo e a piedade; eu iria vel-a em casa, e só em casa, em presença do marido, para lhe não dizer nada, á espera do effeito da minha intimação. Deste modo, poderia conciliar as duas forças. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda um fórma de egoismo, e que a resolução de ir consolar Virgilia não passava de uma suggestão de meu proprio padecimento. Occorre-me a este proposito um naturalista,—não me lembra qual,—mas era um naturalista,—em quem li esta observação curiosa: «O gato não nos affaga, affaga-se em nós.» Vejo que eu fazia um compromisso de gato.